domingo, 21 de abril de 2013

LENDA PETROPOLITANA: A FIGUEIRA DE TIRADENTES

Entre as tradições históricas que compõem o imaginário de Petrópolis encontra-se a chamada Lenda da Figueira de Tiradentes, associada ao antigo núcleo rural de Corrêas e à Fazenda do Padre Corrêa. A narrativa, transmitida durante gerações, afirma que o alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, teria descansado ou permanecido amarrado ao tronco de uma antiga árvore existente diante da sede da fazenda. Embora a documentação histórica não permita confirmar esse episódio, a tradição possui interesse particular por estabelecer uma relação entre a história da Conjuração Mineira, os antigos caminhos que ligavam Minas Gerais ao Rio de Janeiro e o território que posteriormente constituiria Petrópolis.

A origem da lenda pode estar relacionada à própria circulação de Tiradentes pelos caminhos que conduziam ao Rio de Janeiro. Em 1789, antes de sua prisão, o alferes deslocava-se entre Minas Gerais e a capital colonial, utilizando as antigas vias de comunicação que atravessavam a região do vale do Paraíba. Os Autos da Devassa da Conjuração Mineira registram sua passagem por localidades como Varginha e Cebolas, esta última situada na região de Paraíba do Sul. A sentença posteriormente proferida contra Tiradentes determinou que partes de seu corpo fossem expostas precisamente em locais relacionados à sua atuação e à divulgação de suas ideias, entre eles Varginha e Cebolas.

A partir desse dado documental, compreende-se melhor a formação da tradição existente em Corrêas. O antigo caminho que ligava Minas Gerais ao Rio de Janeiro passava por áreas que, posteriormente, integrariam o município de Petrópolis. A Fazenda do Padre Corrêa encontrava-se justamente em uma dessas rotas de circulação. Assim, embora não exista prova documental de que Tiradentes tenha repousado sob a árvore, é historicamente plausível que tenha transitado pelas proximidades da região quando ainda se encontrava em liberdade.

É necessário, entretanto, estabelecer uma distinção fundamental entre a tradição e a documentação histórica. A versão segundo a qual Tiradentes teria passado por Corrêas preso, conduzido por soldados de Vila Rica em direção ao Rio de Janeiro, não corresponde aos acontecimentos registrados pela documentação. Tiradentes foi preso no Rio de Janeiro em 10 de maio de 1789, quando se encontrava escondido em uma residência da antiga Rua dos Latoeiros, atual Rua Gonçalves Dias. Após a prisão, permaneceu encarcerado durante quase três anos, sendo executado somente em 21 de abril de 1792.

Portanto, não poderia ter passado pela Fazenda do Padre Corrêa como prisioneiro em uma viagem entre Vila Rica e o Rio de Janeiro. A própria cronologia da Conjuração Mineira desmonta essa parte da narrativa. Isso, contudo, não elimina a possibilidade de que a origem remota da lenda esteja relacionada a uma passagem anterior do alferes pela região ou, ainda, à circulação posterior dos demais envolvidos na Conjuração.

A história de Corrêas está intimamente ligada às antigas propriedades rurais estabelecidas no vale do Piabanha. A área teve origem em terras concedidas em sesmaria e, ao longo do século XVIII, passou por diferentes proprietários, ficando posteriormente conhecida como Fazenda de Manoel Corrêa e, depois, Fazenda do Padre Corrêa. A propriedade tornou-se importante ponto de parada para viajantes que percorriam a estrada entre o Rio de Janeiro e Minas Gerais.

o início do século XIX, a fazenda já era conhecida pelos viajantes estrangeiros. John Mawe, que percorreu a região em 1809, registrou a existência de uma casa e de uma capela, além da intensa atividade desenvolvida pelo padre Corrêa. O estabelecimento possuía trabalhadores escravizados e destacava-se, entre outras atividades, pela fabricação de ferraduras e pelo cultivo agrícola.

A importância da fazenda como ponto de passagem é confirmada por diferentes relatos de viajantes. A documentação reunida por pesquisadores da história territorial de Petrópolis demonstra que, entre 1809 e as décadas seguintes, diversos viajantes registraram a propriedade e sua produção, revelando a importância daquele estabelecimento no antigo caminho entre a Corte e Minas Gerais.

Foi nesse cenário que se tornou célebre uma enorme árvore existente diante da casa-grande. Frequentemente denominada figueira, embora também apareça descrita como gameleira, a árvore impressionava por suas dimensões. A tradição afirmava que sua sombra poderia abrigar centenas de pessoas e que um de seus grandes galhos alcançava as proximidades da capela da fazenda.

A grandiosidade da árvore contribuiu certamente para sua transformação em elemento da memória local. Árvores de grandes proporções, sobretudo aquelas associadas a casas antigas, igrejas, caminhos e acontecimentos extraordinários, frequentemente assumem papel simbólico na memória das comunidades. No caso de Corrêas, a associação com Tiradentes acrescentou à árvore uma dimensão patriótica e lendária.

Um dos registros mais significativos da lenda encontra-se na crônica “As árvores têm almas”, publicada por Humberto de Campos em 26 de abril de 1930, na revista O Cruzeiro. O escritor apresentou a velha árvore de Corrêas como aquela cuja sombra, segundo a tradição oral, teria acolhido Tiradentes.

Humberto de Campos, contudo, não deixou de perceber a contradição histórica. Sua narrativa reproduzia a tradição segundo a qual o alferes teria chegado à região como prisioneiro, mas, em seguida, reconhecia que a História contestava essa possibilidade. A própria estrutura do texto demonstra como a memória popular e a documentação histórica podiam conviver, ainda que em permanente tensão.

Outro relato, citado em estudos e memórias locais, acrescentou um elemento ainda mais dramático à tradição: a afirmação de que soldados teriam arrancado um dos braços de Tiradentes junto à árvore. A explicação provável para essa versão encontra-se no episódio verdadeiro da exposição de partes do corpo do condenado em Cebolas. A sentença determinava expressamente que partes do corpo de Tiradentes fossem expostas em locais relacionados à sua atuação. Com o passar do tempo, a memória desse acontecimento pode ter sido deslocada geograficamente e incorporada à narrativa da velha árvore de Corrêas.

Dessa maneira, a lenda não deve ser simplesmente classificada como uma “mentira histórica”. Ela pode ser compreendida como resultado de um processo de transformação da memória, no qual diferentes acontecimentos reais foram reunidos e reinterpretados pela tradição oral.

A força da tradição ultrapassou a história da passagem do alferes. Segundo antigos relatos locais, no início do século XX ainda havia moradores que acreditavam que o espírito de Tiradentes aparecia nas proximidades da árvore durante a noite.

A imagem era particularmente dramática: o mártir surgiria vestido com a camisola de condenado, trazendo a corda ao pescoço e arrastando-a pelo chão, até finalmente refugiar-se sob a copa da velha figueira. O relato revela como a memória de Tiradentes havia adquirido características próprias do imaginário popular. O personagem histórico transformava-se em figura sobrenatural, ligada simultaneamente ao sofrimento, à justiça e à resistência.

A lenda também teria produzido certo temor entre os moradores de Corrêas. Evitava-se passar pela árvore durante a noite, sobretudo em horários associados à aparição do suposto espírito. Nesse processo, a árvore deixou de ser apenas um elemento da paisagem e passou a constituir um verdadeiro lugar de memória.

Outra tradição associada à velha árvore apresenta caráter menos trágico e mais pitoresco. Segundo a narrativa local, um de seus enormes galhos teria alcançado as proximidades da capela da fazenda. Certo domingo, quando os fiéis deixavam o templo após a missa, teriam se deparado com um macaco pendurado no galho, aparentemente observando o interior da igreja.

Assustado com a movimentação dos devotos, o animal teria fugido pelos galhos em direção à mata. O episódio, provavelmente um simples acontecimento natural, acabou incorporado ao folclore local. Surgiu então a divertida tradição de que os macacos de Corrêas gostavam de assistir às missas da capela.

A história demonstra como a memória popular se constrói também por meio de acontecimentos cotidianos. A mesma árvore que abrigava uma narrativa trágica relacionada a Tiradentes servia, simultaneamente, de cenário para histórias humorísticas e fantásticas.

A antiga árvore sobreviveu durante gerações como testemunho da paisagem histórica de Corrêas. Entretanto, em 1954, por determinação da Prefeitura Municipal de Petrópolis, a lendária figueira foi derrubada. Com sua queda, desapareceu um dos mais conhecidos elementos materiais associados às tradições locais.

A árvore, contudo, continuou existindo na memória. Fotografias, pinturas, relatos de viajantes, crônicas e tradições orais permitiram que sua imagem sobrevivesse ao desaparecimento físico. O próprio acervo relacionado à Casa do Padre Corrêa conserva referências iconográficas à árvore tradicionalmente associada a Tiradentes.

A chamada Figueira de Tiradentes permanece, portanto, como exemplo expressivo da relação entre história e memória. Não é possível afirmar documentalmente que Joaquim José da Silva Xavier tenha sido amarrado ao seu tronco. Tampouco há fundamento histórico para a narrativa de que teria chegado a Corrêas como prisioneiro vindo de Vila Rica. A documentação demonstra que sua prisão ocorreu no Rio de Janeiro, em maio de 1789.

Entretanto, é igualmente precipitado ignorar a importância histórica da tradição. Corrêas encontrava-se em uma antiga rota de ligação entre Minas Gerais e o Rio de Janeiro; Tiradentes efetivamente percorreu os caminhos da região em período anterior à sua prisão; Cebolas, local associado à exposição de parte de seus restos mortais, integrava essa mesma rede de circulação; e a Fazenda do Padre Corrêa era reconhecidamente um importante ponto de parada dos viajantes.

A lenda nasceu, assim, do encontro entre geografia, memória, tradição oral e acontecimentos históricos. O tempo acrescentou detalhes, deslocou acontecimentos e transformou uma antiga árvore em testemunha imaginária da trajetória de um dos personagens mais importantes da memória nacional.

Hoje, desaparecida a árvore que durante décadas dominou a paisagem da antiga Fazenda do Padre Corrêa, resta a narrativa. E talvez seja justamente essa a maior importância da lenda: lembrar que a história de um lugar não é formada apenas por documentos oficiais, mas também pelas histórias que seus habitantes preservam, reinterpretam e transmitem.

A Figueira de Tiradentes não pode ser apresentada pela historiografia como prova da passagem do alferes preso por Corrêas. Deve, antes, ser compreendida como um lugar de memória, no qual diferentes acontecimentos históricos foram reunidos pela tradição popular. Entre a realidade documentada e a imaginação coletiva nasceu uma das mais curiosas lendas da história de Petrópolis.

 

Referências bibliográficas

CAMPOS, Humberto de. As árvores têm almas. O Cruzeiro, Rio de Janeiro, 26 abr. 1930.

CUNHA MATTOS, Raimundo José da. Itinerário do Rio de Janeiro ao Pará e Maranhão pelas províncias de Minas Gerais e Goiás. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1836.

FROÉS, Carlos Oliveira. Petrópolis: a saga de um caminho. Petrópolis: Instituto Histórico de Petrópolis, 2005.

MAXWELL, Kenneth. Conjuração mineira: novos aspectos. Estudos Avançados, São Paulo, v. 3, n. 6, 1989.

AMBROZIO, Julio Cesar Gabrich. O presente e o passado no processo urbano da cidade de Petrópolis: uma história territorial. 2008. Tese (Doutorado em Geografia Humana) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2008.

LABOMBE, Lourenço. A mais velha casa de Corrêas. Revista do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Rio de Janeiro, n. 2, 1938, p. 93-99.

BRASIL. Autos de Devassa da Inconfidência Mineira. Brasília: Câmara dos Deputados; Belo Horizonte: Imprensa Oficial de Minas Gerais.

MUSEU IMPERIAL. Casa do Padre Corrêa: documentação iconográfica e referências históricas. Petrópolis: Instituto Brasileiro de Museus.

Fontes digitais consultadas

Os registros sobre a Casa do Padre Corrêa, sua documentação iconográfica e a bibliografia relacionada à propriedade podem ser consultados no catálogo especializado sobre patrimônio histórico.

A narrativa tradicional da Figueira de Tiradentes e sua permanência na memória local também foi registrada em publicações de história de Petrópolis.

A documentação sobre a prisão de Tiradentes confirma que ela ocorreu no Rio de Janeiro, em 10 de maio de 1789, elemento fundamental para a análise crítica da lenda.

 

 



Um comentário:

  1. Grata pela Historia. Aí fui pesquisar qual o prefeito que mandou cortar a árvore - odeio quem corta árvores e fiquei na duvida, seria o Jaime Justo, ou o Flavio Castrioto ? E por que ?

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