terça-feira, 30 de abril de 2013

A ESTRADA DE FERRO DE PETRÓPOLIS



Alcindo Sodré


A primeira linha férrea construída no Brasil foi a da Imperial Companhia de Navegação a Vapor e Estrada de Ferro de Petrópolis, por concessão feita a Irineu Evangelista de Souza, pelo decreto do Poder Executivo de 12 de Junho de 1852.
A inauguração do primeiro trecho concluído, que ia do Porto de Mauá até ao Fragoso próximo da Raiz da Serra, verificou-se a 30 de Abril de 1854.
As solenidades festivas estiveram bem à altura da importância do empreendimento.
Logo pela manhã desse dia inúmeras embarcações partiram do Rio de Janeiro carregadas de gente que desejava alcançar o porto de Mauá antes de Suas Majestades e sua corte, para apreciar em todos os seus detalhes, as cerimônias com que seria consagrado o inicio de tão importante melhoramento para a vida nacional.
A hora aprazada atracou o navio que conduzia Suas Majestades e logo uma girândola de foguetes anunciou o seu desembarque. Inúmeras bandeiras agitavam-se ao vento, como que partilhando das estrondosas saudações e dos acordes de uma banda marcial. Suas majestades recebidas pelo diretor da empresa atravessam duas extensas de pessoas, acompanhados por notáveis do império, dirigindo-se para o local destinado. Um dos grandes armazéns de ferro, tinha sido preparado com a galerias para acomodar os assistentes tendo ao centro dispostos, não só os tronos do Imperador e da Imperatriz, como a capela e o altar improvisados onde o bispo iria celebrar, bem como os lugares, distintos para os ministros de Estado e o corpo diplomático.
Quando o Imperador tomou o lugar que lhe tinha sido reservado, principiou o cerimonial da benção das locomotivas, ao som de música apropriada ao ato.
Feito o que, as máquinas preparam-se para a viagem. Pedro II e Thereza Cristina foram conduzidos a seu carro pelo sr. Irineu Evangelista de Souza, enquanto os demais convidados tomavam assento em outras seções, partiu o trem sob delirantes vivas da multidão entusiasmada.
Soldados da Guarda Nacional estavam postados ao longo da linha e todas as alturas estavam cheias de espectadores.
A chegada do comboio ao Fragoso foi saudada por foguetes. Suas Majestades e comitiva desceram e foram servidos de refrescos, voltando logo depois para Mauá, caminhando o trem, numa média de 35 milhas por hora.
O Imperador e sua consorte, ao aparecerem manifestaram a viva satisfação de que se achavam possuídos e a agradável impressão que se inaugurava no Brasil.
Irineu de Souza, presidente da empresa, dirigiu-se então a S. M. Imperador, discorrendo com precisão sobre as vantagens que as estradas de ferro trariam ao Império e estas foram as suas ultimas palavras:
“Este caminho de ferro, Senhor, não será destinado a circunscrever-se dentro dos atuais limites, e se me é licito contar coma proteção de V.M.I., ele certamente não terminará sem que sua mais vasta estação seja colocada na margem esquerda do Rio das Velhas. Ali se acumularão, para ser transportadas ao mercado do Rio, essas imensas massas de produção, com que contribuirá para a prosperidade pública, a região banhada por essa importante, arteira fluvial do Rio São Francisco. Será então, Senhor, que a majestosa Bahia, cujas águas banham as costas da capital do Império, verá seus espaçosos e abrigados ancoradouros cobertos de inumeráveis navios. Então, Senhor, será o Rio de Janeiro o centro do comércio, da industria da saúde, da civilização e da força, nada tendo que invejar a lugar algum do mundo.”
S.M. o Imperador, assim lhe respondeu:
“Os diretores da Imperial Estrada de Ferro de Petrópolis e da Companhia de Navegação a Vapor podem ficar certos de que por igual compartilho o seu regozijo na estréia de uma empresa que tem de animar tão grandemente o comércio, as artes e a indústria deste Império.”
Nessa altura, S.M. conferiu ao Sr. Irineu de Souza, o título de Barão de Mauá, em reconhecimento dos serviços prestados a Pátria.
Acompanhado pelo Barão de Mauá e engenheiros, Sua Majestade percorreu depois as obras de linha e as oficinas.
 A estação tinha sido grandemente enfeitada e nela se achava servido farto banquete, do qual participaram o Imperador e seu séquito, bem como todas as pessoas gradas, enquanto outros três partiam, conduzindo muitos espectadores.
Em 1858, a conhecida revista britânica “London Illustrated News”, dedicou interessante crônica, com gravuras, sobre esse memorável acontecimento nacional e nela foi escrito o seguinte:
“Quando refletimos que as obras deste caminho de ferro foram executadas no curto espaço de 20 meses, debaixo dos ardentes raios de um Sol Tropical e tão grande distância da Inglaterra, não podemos regatear louvores aqueles que se abalançaram a semelhante obra.
Felicitamos sinceramente os brasileiros pelo nobre espírito que desenvolveram no começo dessa obra de tanta magnitude.”
Em 26 de Março de 1856, no Relátorio da Imperial Companhia de Vapor e Estrada de Ferro de Petrópolis apresentado a Assembleia Geral de Acionistas, o Sr. Barão de Mauá, como seu presidente, dizia:
“ Acha-se concluído o trilho até a Raiz da Serra. Toda a estrada acha-se no melhor estado, tendo resistido a notáveis provações em conseqüência das grandes enchentes que temos presenciados nos últimos seis meses, sendo uma delas superior a qualquer outra das que se tem observado desde o ano de 1854.
A solidez da construção da estrada de ferro de Mauá não pode, pois ser mais posta em dúvida. Uma linha férrea singela, constituída sobre um terreno, parte do qual não podia ser pior para semelhantes construções, e que o trânsito público tenha sido interrompido um só dia, está a prova de tudo.
A estação do Alto da Serra no começo, da Vila Thereza, compõe-se de um vasto edifício de ferro. O elevado algarismo que representa o custo desta estação foi em parte devido à enormidade do serviço de aterros que foi preciso fazer naquela localidade.
A estação da Raiz da Serra, que se compõe de três  grandes armazéns de ferro, chegou de Inglaterra em principio os vapores “Guarani”, “Mauá” e “Piabanha”. Transitaram na linha férrea no ano próximo passado, 31.3982 passageiros, produzindo a renda de 126:796$800.”
E nas considerações gerais sobre a importância da obra realizada, escreveu ainda o Barão de Mauá:
 “Se a produção em obediência a condições naturais se opera a grandes distâncias do litoral, forçoso é franquear-lhe passagem rápida e econômica até os grandes mercados do litoral , sob pena de retrogradar o país, de perigar a civilização. Os meios primitivos que eram até agora facultados a produção para vir procurar mercado, não bastam para vir procurar mercado, não bastam para satisfazer as exigências crescentes da nossa riqueza agrícola. O valor do produto transportado mesmo de distancias moderadas é quase que absorvido pelas despesas do semelhantes estado não pode, não deve continuar. E ao clamor público que já se fez ouvir, ao brado unânime de – Estradas! – e repercute de todos os ângulos do Império, respondem finalmente os governantes – Estradas!”
O prolongamento da linha férrea até Petrópolis, que se verificaria após trinta anos do tráfego existentes na baixada foi vencendo aos poucos, as dificuldades da serra. A 4 de Janeiro de 1883, passava o primeiro trem pelo viaduto da Grota Funda. O fato constituiu festa local com grande afluência de povo. O trem composto de uma locomotiva e três carros levavam a diretoria da Estrada e sua comitiva. Em bosque ao lado da cachoeira da Grota Funda, foi servido esplendido almoço, tocando na ocasião a banda “15 de Março”. Entre os oradores discursou o senador Christiano Ottoni, enaltecendo a obra dos engenheiros patrícios e em especial a figura do Barão de Mauá, “o pioneiro da estrada de ferro no Brasil”.
E a 11 de Fevereiro do mesmo ano, pelas 9 horas da manhã de um domingo, chegava a Petrópolis a primeira locomotiva, conduzindo S. M. o Imperador e grande número de passageiros vindo da Corte. Ficou, assim completado o trecho da serra até Petrópolis, construído que foi pelo engenheiro Joaquim Lisboa, com auxilio de Marcellino Ramos. O sistema da serra, em cremalheira, era o do europeu Nicolau Rigenbach. Foram seus concessionários Berrini e os Calógeras (Miguel e Pandiá) e da companhia que então se organizou (Estrada de Ferro Príncipe Grão Pará, com plano de estender-se até S. José do Rio Preto) foi presidente o Sr. João da Silva Coutinho.
A 30 de Abril de 1884, presentes na estação de Petrópolis, o juiz de Direito e demais autoridades, a diretoria da Companhia Príncipe Grão Pará e muitos espectadores, foram inaugurados o busto do Visconde de Mauá, em comemoração, ao 30° aniversário da abertura ao trafego da primeira via ferra do país.
Falou, em saudação a Mauá, que se achava presente o presidente da diretoria João Martins da Silva Coutinho, de cujas palavras constaram as seguintes:
“Para vencer a serra da Estrela, despendeu o Visconde de Mauá avultados capitais em diversas tentativas e ainda foi o primeiro que mandou estudar na serra a aplicação do sistema de cremalheira. Dando assim o mais solene testemunho do apreço em que tem os importantes serviços do Visconde de Mauá, a diretoria não só manifesta seus próprios sentimentos como também o dos acionistas da companhia que representa. Viva o Visconde de Mauá!”

Artigo publicado:
Trabalhos da Comissão do Centenário - Vol. II, 1939


Um comentário:

  1. Parabéns pela magnifica reportagem sobre a Ferrovia. Um forte abraço ate...

    ResponderExcluir