Entre as tradições
históricas que compõem o imaginário de Petrópolis encontra-se a chamada Lenda
da Figueira de Tiradentes, associada ao antigo núcleo rural de Corrêas e à
Fazenda do Padre Corrêa. A narrativa, transmitida durante gerações, afirma que
o alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, teria descansado ou
permanecido amarrado ao tronco de uma antiga árvore existente diante da sede da
fazenda. Embora a documentação histórica não permita confirmar esse episódio, a
tradição possui interesse particular por estabelecer uma relação entre a
história da Conjuração Mineira, os antigos caminhos que ligavam Minas Gerais ao
Rio de Janeiro e o território que posteriormente constituiria Petrópolis.
A origem da lenda
pode estar relacionada à própria circulação de Tiradentes pelos caminhos que
conduziam ao Rio de Janeiro. Em 1789, antes de sua prisão, o alferes
deslocava-se entre Minas Gerais e a capital colonial, utilizando as antigas
vias de comunicação que atravessavam a região do vale do Paraíba. Os Autos da
Devassa da Conjuração Mineira registram sua passagem por localidades como
Varginha e Cebolas, esta última situada na região de Paraíba do Sul. A sentença
posteriormente proferida contra Tiradentes determinou que partes de seu corpo
fossem expostas precisamente em locais relacionados à sua atuação e à
divulgação de suas ideias, entre eles Varginha e Cebolas.
A partir desse
dado documental, compreende-se melhor a formação da tradição existente em
Corrêas. O antigo caminho que ligava Minas Gerais ao Rio de Janeiro passava por
áreas que, posteriormente, integrariam o município de Petrópolis. A Fazenda do
Padre Corrêa encontrava-se justamente em uma dessas rotas de circulação. Assim,
embora não exista prova documental de que Tiradentes tenha repousado sob a
árvore, é historicamente plausível que tenha transitado pelas proximidades da
região quando ainda se encontrava em liberdade.
É necessário,
entretanto, estabelecer uma distinção fundamental entre a tradição e a
documentação histórica. A versão segundo a qual Tiradentes teria passado por
Corrêas preso, conduzido por soldados de Vila Rica em direção ao Rio de
Janeiro, não corresponde aos acontecimentos registrados pela documentação.
Tiradentes foi preso no Rio de Janeiro em 10 de maio de 1789, quando se
encontrava escondido em uma residência da antiga Rua dos Latoeiros, atual Rua
Gonçalves Dias. Após a prisão, permaneceu encarcerado durante quase três anos,
sendo executado somente em 21 de abril de 1792.
Portanto, não
poderia ter passado pela Fazenda do Padre Corrêa como prisioneiro em uma viagem
entre Vila Rica e o Rio de Janeiro. A própria cronologia da Conjuração Mineira
desmonta essa parte da narrativa. Isso, contudo, não elimina a possibilidade de
que a origem remota da lenda esteja relacionada a uma passagem anterior do
alferes pela região ou, ainda, à circulação posterior dos demais envolvidos na
Conjuração.
A história de
Corrêas está intimamente ligada às antigas propriedades rurais estabelecidas no
vale do Piabanha. A área teve origem em terras concedidas em sesmaria e, ao
longo do século XVIII, passou por diferentes proprietários, ficando
posteriormente conhecida como Fazenda de Manoel Corrêa e, depois, Fazenda do
Padre Corrêa. A propriedade tornou-se importante ponto de parada para viajantes
que percorriam a estrada entre o Rio de Janeiro e Minas Gerais.
o início do século
XIX, a fazenda já era conhecida pelos viajantes estrangeiros. John Mawe, que
percorreu a região em 1809, registrou a existência de uma casa e de uma capela,
além da intensa atividade desenvolvida pelo padre Corrêa. O estabelecimento possuía
trabalhadores escravizados e destacava-se, entre outras atividades, pela
fabricação de ferraduras e pelo cultivo agrícola.
A importância da
fazenda como ponto de passagem é confirmada por diferentes relatos de
viajantes. A documentação reunida por pesquisadores da história territorial de
Petrópolis demonstra que, entre 1809 e as décadas seguintes, diversos viajantes
registraram a propriedade e sua produção, revelando a importância daquele
estabelecimento no antigo caminho entre a Corte e Minas Gerais.
Foi nesse cenário
que se tornou célebre uma enorme árvore existente diante da casa-grande.
Frequentemente denominada figueira, embora também apareça descrita como
gameleira, a árvore impressionava por suas dimensões. A tradição afirmava que
sua sombra poderia abrigar centenas de pessoas e que um de seus grandes galhos
alcançava as proximidades da capela da fazenda.
A grandiosidade da
árvore contribuiu certamente para sua transformação em elemento da memória
local. Árvores de grandes proporções, sobretudo aquelas associadas a casas
antigas, igrejas, caminhos e acontecimentos extraordinários, frequentemente
assumem papel simbólico na memória das comunidades. No caso de Corrêas, a
associação com Tiradentes acrescentou à árvore uma dimensão patriótica e
lendária.
Um dos registros
mais significativos da lenda encontra-se na crônica “As árvores têm almas”,
publicada por Humberto de Campos em 26 de abril de 1930, na revista O Cruzeiro.
O escritor apresentou a velha árvore de Corrêas como aquela cuja sombra,
segundo a tradição oral, teria acolhido Tiradentes.
Humberto de
Campos, contudo, não deixou de perceber a contradição histórica. Sua narrativa
reproduzia a tradição segundo a qual o alferes teria chegado à região como
prisioneiro, mas, em seguida, reconhecia que a História contestava essa
possibilidade. A própria estrutura do texto demonstra como a memória popular e
a documentação histórica podiam conviver, ainda que em permanente tensão.
Outro relato,
citado em estudos e memórias locais, acrescentou um elemento ainda mais
dramático à tradição: a afirmação de que soldados teriam arrancado um dos
braços de Tiradentes junto à árvore. A explicação provável para essa versão
encontra-se no episódio verdadeiro da exposição de partes do corpo do condenado
em Cebolas. A sentença determinava expressamente que partes do corpo de
Tiradentes fossem expostas em locais relacionados à sua atuação. Com o passar
do tempo, a memória desse acontecimento pode ter sido deslocada geograficamente
e incorporada à narrativa da velha árvore de Corrêas.
Dessa maneira, a
lenda não deve ser simplesmente classificada como uma “mentira histórica”. Ela
pode ser compreendida como resultado de um processo de transformação da
memória, no qual diferentes acontecimentos reais foram reunidos e
reinterpretados pela tradição oral.
A força da
tradição ultrapassou a história da passagem do alferes. Segundo antigos relatos
locais, no início do século XX ainda havia moradores que acreditavam que o
espírito de Tiradentes aparecia nas proximidades da árvore durante a noite.
A imagem era
particularmente dramática: o mártir surgiria vestido com a camisola de
condenado, trazendo a corda ao pescoço e arrastando-a pelo chão, até finalmente
refugiar-se sob a copa da velha figueira. O relato revela como a memória de
Tiradentes havia adquirido características próprias do imaginário popular. O
personagem histórico transformava-se em figura sobrenatural, ligada
simultaneamente ao sofrimento, à justiça e à resistência.
A lenda também
teria produzido certo temor entre os moradores de Corrêas. Evitava-se passar
pela árvore durante a noite, sobretudo em horários associados à aparição do
suposto espírito. Nesse processo, a árvore deixou de ser apenas um elemento da
paisagem e passou a constituir um verdadeiro lugar de memória.
Outra tradição
associada à velha árvore apresenta caráter menos trágico e mais pitoresco.
Segundo a narrativa local, um de seus enormes galhos teria alcançado as
proximidades da capela da fazenda. Certo domingo, quando os fiéis deixavam o
templo após a missa, teriam se deparado com um macaco pendurado no galho,
aparentemente observando o interior da igreja.
Assustado com a
movimentação dos devotos, o animal teria fugido pelos galhos em direção à mata.
O episódio, provavelmente um simples acontecimento natural, acabou incorporado
ao folclore local. Surgiu então a divertida tradição de que os macacos de Corrêas
gostavam de assistir às missas da capela.
A história
demonstra como a memória popular se constrói também por meio de acontecimentos
cotidianos. A mesma árvore que abrigava uma narrativa trágica relacionada a
Tiradentes servia, simultaneamente, de cenário para histórias humorísticas e
fantásticas.
A antiga árvore
sobreviveu durante gerações como testemunho da paisagem histórica de Corrêas.
Entretanto, em 1954, por determinação da Prefeitura Municipal de Petrópolis, a
lendária figueira foi derrubada. Com sua queda, desapareceu um dos mais
conhecidos elementos materiais associados às tradições locais.
A árvore, contudo,
continuou existindo na memória. Fotografias, pinturas, relatos de viajantes,
crônicas e tradições orais permitiram que sua imagem sobrevivesse ao
desaparecimento físico. O próprio acervo relacionado à Casa do Padre Corrêa
conserva referências iconográficas à árvore tradicionalmente associada a
Tiradentes.
A chamada Figueira
de Tiradentes permanece, portanto, como exemplo expressivo da relação entre
história e memória. Não é possível afirmar documentalmente que Joaquim José da
Silva Xavier tenha sido amarrado ao seu tronco. Tampouco há fundamento
histórico para a narrativa de que teria chegado a Corrêas como prisioneiro
vindo de Vila Rica. A documentação demonstra que sua prisão ocorreu no Rio de
Janeiro, em maio de 1789.
Entretanto, é
igualmente precipitado ignorar a importância histórica da tradição. Corrêas
encontrava-se em uma antiga rota de ligação entre Minas Gerais e o Rio de
Janeiro; Tiradentes efetivamente percorreu os caminhos da região em período
anterior à sua prisão; Cebolas, local associado à exposição de parte de seus
restos mortais, integrava essa mesma rede de circulação; e a Fazenda do Padre
Corrêa era reconhecidamente um importante ponto de parada dos viajantes.
A lenda nasceu,
assim, do encontro entre geografia, memória, tradição oral e acontecimentos
históricos. O tempo acrescentou detalhes, deslocou acontecimentos e transformou
uma antiga árvore em testemunha imaginária da trajetória de um dos personagens
mais importantes da memória nacional.
Hoje, desaparecida
a árvore que durante décadas dominou a paisagem da antiga Fazenda do Padre
Corrêa, resta a narrativa. E talvez seja justamente essa a maior importância da
lenda: lembrar que a história de um lugar não é formada apenas por documentos
oficiais, mas também pelas histórias que seus habitantes preservam,
reinterpretam e transmitem.
A Figueira de
Tiradentes não pode ser apresentada pela historiografia como prova da passagem
do alferes preso por Corrêas. Deve, antes, ser compreendida como um lugar de
memória, no qual diferentes acontecimentos históricos foram reunidos pela
tradição popular. Entre a realidade documentada e a imaginação coletiva nasceu
uma das mais curiosas lendas da história de Petrópolis.
Referências bibliográficas
CAMPOS, Humberto de. As árvores têm almas.
O Cruzeiro, Rio de Janeiro, 26 abr. 1930.
CUNHA MATTOS, Raimundo José da. Itinerário
do Rio de Janeiro ao Pará e Maranhão pelas províncias de Minas Gerais e Goiás.
Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1836.
FROÉS, Carlos Oliveira. Petrópolis: a saga
de um caminho. Petrópolis: Instituto Histórico de Petrópolis, 2005.
MAXWELL, Kenneth. Conjuração mineira:
novos aspectos. Estudos Avançados, São Paulo, v. 3, n. 6, 1989.
AMBROZIO, Julio Cesar Gabrich. O presente
e o passado no processo urbano da cidade de Petrópolis: uma história
territorial. 2008. Tese (Doutorado em Geografia Humana) – Faculdade de
Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo,
2008.
LABOMBE, Lourenço. A mais velha casa de
Corrêas. Revista do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Rio
de Janeiro, n. 2, 1938, p. 93-99.
BRASIL. Autos de Devassa da Inconfidência
Mineira. Brasília: Câmara dos Deputados; Belo Horizonte: Imprensa Oficial de
Minas Gerais.
MUSEU IMPERIAL. Casa do Padre Corrêa:
documentação iconográfica e referências históricas. Petrópolis: Instituto
Brasileiro de Museus.
Fontes digitais consultadas
Os registros sobre a Casa do Padre Corrêa,
sua documentação iconográfica e a bibliografia relacionada à propriedade podem
ser consultados no catálogo especializado sobre patrimônio histórico.
A narrativa tradicional da Figueira de
Tiradentes e sua permanência na memória local também foi registrada em
publicações de história de Petrópolis.
A documentação sobre a prisão de
Tiradentes confirma que ela ocorreu no Rio de Janeiro, em 10 de maio de 1789,
elemento fundamental para a análise crítica da lenda.

Grata pela Historia. Aí fui pesquisar qual o prefeito que mandou cortar a árvore - odeio quem corta árvores e fiquei na duvida, seria o Jaime Justo, ou o Flavio Castrioto ? E por que ?
ResponderExcluir