terça-feira, 26 de março de 2013

O CAMINHO NOVO


De acordo com Carta Régia de 1699, é autorizada a abertura do Caminho Novo, pedido feito pelo governador da capitania do Rio de Janeiro, Arthur Sá Menezes, um ano antes, em 1698, ao rei D. Pedro II de Portugal. O pedido é feito devido aos riscos que os viajantes e os mercadores corriam ao atravessar principalmente o trecho marítimo de Paraty ao Rio de Janeiro, por causa dos constantes ataques dos piratas naquela região.
 A abertura do Caminho Novo fica a cargo de Garcia Rodrigues Pais, bandeirante, filho de Fernão Dias. Garcia Pais possuía duas sesmarias: uma na margem do rio Paraibuna e outra em Borda Campos, hoje Barbacena – MG.
 Em 1700, após vários problemas, o sesmeiro, consegue finalizar a picada para o transito de pedestre. Mais tarde começa melhorar o caminho para a viagem com animais de carga, com a finalidade de cobrar pedágio. O Caminho Novo fica concluído em 1707.
 O tempo de percurso durava cerca de 30 dias, um terço do tempo que se levava para percorrer o Caminho Velho. 
 O percurso iniciava no antigo cais dos Mineiros, no vale entre o morro de São Bento e a atual praça XV de novembro, perto da igreja da Candelária, saindo do cais, fazia-se escalada na Ilha do Governador, indo para o fundo da baia da Guanabara, chegando ao rio Iguaçu, continuando de barca, adentrava-se no rio Pilar, percorrendo no total 12 km de trajeto fluvial. Desembarcava-se no porto de Pilar do Iguaçu, atual Duque de Caxias, começando o trajeto terrestre a pé, a cavalo, ou em mulas, por uma estrada que passava pela Vila de Xerém, subindo a serra até chegar a Paty de Alferes.
 A subida da serra era muito íngreme fazendo muitas vezes com que mulas e até mesmo pessoas rolassem serra abaixo, perdendo assim mercadorias e se ferindo. Esses acidentes ocorriam porque Garcia Rodrigues Pais, abriu o Caminho do interior para o litoral, assim ele não pode ou não cuidou de escolher um caminho menos íngreme. Alem de ser uma subida íngreme os viajantes ainda sofriam com os constantes ataques de indígenas que viviam na região e de bandidos.
 Esse caminho descia a serra passando pelos distritos de Avelar e Werneck até chegar ao rio Paraíba do Sul, atualmente Comendador Levy Gasparian, a partir dá entrava em Minas, seguindo para Juiz de Fora até chegar a Vila Rica, atual Ouro Preto.
 Partir de Ouro Branco podia se voltar para o Caminho Velho até o arraial do Tejuco, atual Diamantina, com algumas ramificações que levavam a Fazendo Meia Ponte, atual Pirenópolis, Vila Boa de Goiás e Bahia. 
 No lado leste do Caminho Novo, ficavam as áreas proibidas que não produziam ouro, que eram guardadas, rigorosamente  pela Coroa, o acesso era impedido até o final do século XVIII, para barrar eventuais desvios longo do Caminho Novo, a fim de evitar pagamento de impostos.
 Com a consolidação do Caminho Novo, ocorreu varias transformações no contexto econômico e político da colônia. O Porto de Pilar não só exportava o ouro das Minas, mas também cerâmica, aguardente, feijão e milho que eram produzidos na baixada fluminense.
 O Rio de Janeiro passou a centralizar a rota de povoamento para as Minas Gerais, superando as vilas paulistas e a Bahia, como o centro distribuidor de bens e pessoas para as Minas. O porto do Rio de Janeiro superava os portos de Santos, Paraty e Salvador no escoamento de ouro, diamante e no abastecimento.
 Ao longo do Caminho Novo haviam vários postos de cobrança de impostos, chamando de Registros. Em 1824, segundo o Registro de Paraíba do Sul, todos os dias passavam cerca de 153 mulas e 77 pessoas.
 Pelo percurso do Caminho Novo foram surgindo varias cidades: Paty de Alferes, Paraíba do Sul, Comendador Levy Gaspariari; Simão Pereira; Matias Barboza; Santo Antonio do Paraibuna, hoje Juiz de For; João Gomes, hoje Santos Dumont; Araciba; Bom Jardim do Tugúrio; Borda do Campo; hoje Barbacena; Paiva; Santana do Deserto; Tabuleiro...
 Em 1723, o governador da capitania de São Sebastião do Rio de Janeiro, Aires de Saldanha, encarrega a Garcia Rodrigues Pais, a construção de um atalho, fazendo com que a subida da serra se tornasse menos íngreme, mas o mesmo não aceita alegando estar doente e com a idade avançada. Assim, essa tarefa é passada para um fazendeiro da baixada fluminense, Bernardo Soares Proença, que morava desde 1721 em uma sesmaria no vale do Itamarati, a maior da região, tanto que após sua morte a mesma é dividida em duas: do Itamarati e do Córrego Seco. Bernardo S. Proença é considerado o primeiro proprietário da região urbana de Petrópolis, sua fazenda ficava aonde hoje se localiza o bairro Itamarati, em Petrópolis. 
A Variante do Caminho Novo ficou conhecida como “Caminho da Serra da Estrela” ou “Caminhos dos Mineiros”. O percurso começava no fundo da baia de Guanabara em pequenas embarcações, subindo o rio Inhomirim até o Porto da Estrela, desse ponto seguia-se a pé, a cavalo ou e mulas, chagando até a Raiz da Serra, logo depois chegava-se ao Alto da Serra, passando pelas ruas denomindas atualmente como: rua Tereza e Dr. Sá Earp, depois passava pelas ruas: dos Mineiros, hoje Silva Jardim, Quissamã, Itamarati, Cascatinha, atravessa-se o rio Piabanha, passava pela rua Hermôgenio Silva, estrada do Carangola, rio da Cidade, Araras, Secretário, Fagundes, Cebolas e Santo Antonio da Encruzilhada, como acontecia com o Caminho Novo que se juntava ao Caminho Velho, a Variante do Caminho Novo também juntava-se ao Caminho Novo de Garcia Pais, quando chegava em Paraíba do Sul.
 Esse novo trajeto, a Variante do Caminho Novo, foi terminado em 1725, depois de quatro anos e meio de trabalho. Bernardo Soares Proença, usou seus próprios escravos indígenas e contratou homens brancos para trabalho, tudo a sua custa. O novo trajeto diminuiu em quatro dias o tempo de viagem das Minas Gerais ao Rio de Janeiro, facilitando com uma via menos acidentada, a chegada do quinto ao Rio de Janeiro e as viagens dos tropeiros as Minas Gerais.
 O “atalho de Soares Proença” é considerado o marco inicial da criação de varias sesmarias na região, que mais tarde foram transformadas em Fazendas.
 A transferência da capital da colônia de Salvador para o Rio de Janeiro, impulsionou fortemente o ciclo do ouro nas Minas Gerais, também com a chegada da família Real Portuguesa em 1808. D. João VI, faz alguns melhoramentos no caminho, um deles é o calçamento do Caminho Novo, da  Raiz da Serra até o Alto da Serra da Estrela, cerca de 10 km, ficando conhecido como o “Caminho ou calçamento das Lajes Soltas de Dom João VI” Hoje esse calçamento ainda pode ser visto de determinados trechos da antiga serra e nos terrenos da Fabrica de Pólvora da Estrela.
 A abertura dos portos em 1808, faz com que venham para o Brasil cientistas estrangeiros que passam a subir a Serra da Estrela, percorrendo o Caminho até Minas Gerias, Goiás, Mato Grosso e Pará para a fim de fazer pesquisas sobre a fauna e flora do país. Essa demanda de cientista fez com que o Barão de Langsdorff, cônsul geral da Rússia no Rio de Janeiro, a criar a fazenda da Mandioca, onde hoje fica a Fabrica da Estrela, que se tornou na época um centro de pesquisas de agricultura experimental ocasionando encontros com cientistas europeus que vinham ao Brasil.
O Caminho Novo foi alço da Inconfidência Mineira, por ele passou Tiradentes algumas vezes para dar apoio aos emancipistas de Minas e do Rio de Janeiro. Após ser condenado a forca e esquartejado seus restos mortais, foram pendurados ao longo do Caminho Novo, a fim de servir de exemplo.
 Dom Pedro I, também percorreu o Caminho Novo, buscando apoio em Minas Gerais, o que conseguiu. Em uma de suas viagens a Minas Gerais, hospedou-se na Fazenda do Padre Correa, que mais tarde tentou comprar, mas não conseguiu, comprando assim outra fazenda vizinha, a Fazenda do Córrego Seco, que deu inicio a criação da cidade de Petrópolis. Em 1831, D. Pedro I, volta a viajar pelo Caminho Novo até Minas Gerais, porem a viagem é mal sucedida, pois queria que a Junta de Vila Rica apoiasse a sua política aristocrática, um dos fatores que fez com que mais tarde renunciasse ao trono do Brasil, voltando para Portugal.




Bibliografia:

RABAÇO, Henrique José. História de Petrópolis – Instituto Histórico de Petrópolis – 1985
SANTOS, Paulo César. Petrópolis Historia de uma cidade imperial – Sermograf – 2000
ABAD, Vera. Petrópolis, Cidade Imperial – Prazerdeler editora - 2009

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