terça-feira, 16 de abril de 2013

A FAZENDA DO PADRE CORREIA E A AQUISIÇÃO DA FAZENDA DO CÓRREGO SECO


A FAZENDA DO PADRE CORREIA E A AQUISIÇÃO DA FAZENDA DO CÓRREGO SECO POR D. PEDRO I

Introdução

A história da formação de Petrópolis não pode ser compreendida exclusivamente a partir do Decreto Imperial nº 155, de 16 de março de 1843, que determinou a criação da povoação-palácio e deu início ao processo de organização urbana que resultaria na cidade. As origens desse processo remontam a uma ocupação muito anterior da região serrana, marcada pela concessão de sesmarias, pela abertura dos caminhos em direção às Minas Gerais e pela formação de grandes propriedades rurais ao longo do vale do Piabanha.

Entre essas propriedades, duas assumiriam papel particularmente importante para a história petropolitana: a Fazenda do Padre Correia, situada na região que posteriormente receberia o nome de Corrêas, e a Fazenda do Córrego Seco, localizada na área central da atual Petrópolis. A relação entre ambas tornou-se decisiva a partir das primeiras décadas do século XIX, quando o imperador D. Pedro I passou a frequentar a região serrana e manifestou interesse em estabelecer ali uma residência de campo.

A trajetória dessas duas fazendas revela, portanto, um processo histórico que antecede em várias décadas a fundação oficial de Petrópolis. Revela também a importância dos antigos caminhos coloniais, da atividade agrícola e manufatureira, das redes familiares de proprietários rurais e, posteriormente, dos interesses da própria Família Imperial na ocupação da Serra da Estrela.

A ocupação do vale do Piabanha

A ocupação luso-brasileira da região serrana do atual município de Petrópolis esteve relacionada à expansão dos caminhos que ligavam o litoral fluminense às áreas mineradoras de Minas Gerais. A abertura do Caminho Novo, no século XVIII, contribuiu para transformar a região em importante zona de passagem de tropeiros, viajantes e mercadorias.

As primeiras sesmarias concedidas no chamado “sertão de serra acima do Inhomirim” remontam ao final do século XVII. Entretanto, a ocupação econômica mais efetiva ganhou impulso posteriormente, quando os caminhos passaram a permitir maior circulação de pessoas e produtos. A região onde mais tarde surgiria Petrópolis já apresentava, portanto, propriedades rurais consolidadas antes da chegada do projeto imperial de fundação da cidade.

Entre essas propriedades destacava-se a Fazenda do Padre Correia. Sua localização, próxima ao Caminho Novo, favoreceu o desenvolvimento de atividades agrícolas e comerciais e tornou a fazenda importante ponto de apoio aos viajantes que atravessavam a serra em direção às Minas Gerais.

A importância econômica da propriedade é registrada tanto pela tradição histórica petropolitana quanto pelos relatos de viajantes estrangeiros. O Instituto Histórico de Petrópolis destaca que a fazenda era conhecida pela produção de frutas, pela fabricação artesanal de ferraduras e pela hospitalidade oferecida aos viajantes.

Antônio Tomás de Aquino Correia

Antônio Tomás de Aquino Correia, posteriormente conhecido como Padre Correia, nasceu em 1759, na região do Rio da Cidade. Sua origem familiar está ligada a importantes proprietários rurais que participaram da ocupação das terras do vale do Piabanha.

A certidão de batismo apresentada na documentação histórica constitui uma fonte primária particularmente relevante para o estudo de sua trajetória:

“Aos 15 dias do mês de Abril de 1759, na Capela de Nossa Senhora do Amor de Deus, no Rio da Cidade, filial desta freguesia de Nossa Senhora da Piedade do Inhomirim, batizou e pôs os santos óleos de licença o reverendo padre Manuel Gonçalves Ramos a ANTONIO, filho legítimo de Manuel Correia da Silva e de sua mulher Brites Maria de Assunção Goulão, neto paterno de Antonio Correia e de Maria Marques da Silva e materno de Manuel Antunes Goulão e de Caetana de Assunção. Foram padrinhos Antonio Rodrigues Sá e Ana Maria, mulher do dito, todos fregueses desta freguesia.”

A documentação permite situar Antônio no interior de uma rede familiar proprietária de terras na região serrana. Seu pai, Manuel Correia da Silva, estava relacionado às terras do Rio da Paciência, enquanto sua mãe, Brites Maria de Assunção Goulão, era descendente de Manuel Antunes Goulão, associado à sesmaria do Rio da Cidade.

Essa rede de parentesco foi fundamental para a formação de um amplo patrimônio fundiário familiar, posteriormente relacionado às propriedades que se desenvolveriam em diferentes áreas da atual Petrópolis.

O sacerdote e administrador rural

A formação de Antônio Correia não se restringiu à administração de propriedades rurais. Segundo a historiografia local, ele dedicou-se aos estudos humanísticos e teológicos, seguindo posteriormente a carreira eclesiástica e sendo ordenado sacerdote em 1783.

Sua atuação religiosa esteve intimamente vinculada à própria organização social da região. Em uma sociedade rural, na qual as distâncias entre as propriedades eram grandes e os núcleos urbanos ainda inexistiam, as capelas desempenhavam papel fundamental na vida comunitária.

A Capela de Nossa Senhora do Amor de Deus, associada à família Correia, tornou-se um importante espaço religioso da região. A propriedade da família funcionava, simultaneamente, como unidade produtiva, local de residência e ponto de apoio aos viajantes.

A trajetória do Padre Correia demonstra, assim, uma característica comum às elites rurais do período colonial e do início do Império: a concentração, em uma mesma família, de patrimônio fundiário, influência econômica e participação na vida religiosa local.

A Fazenda do Padre Correia

A propriedade que posteriormente seria conhecida como Fazenda do Padre Correia constituiu-se em uma das mais importantes unidades agrícolas do vale do Piabanha.

Sua posição junto ao caminho que conduzia às Minas Gerais era estratégica. O fluxo constante de tropas transformava a hospedagem de viajantes em atividade economicamente relevante. A fazenda oferecia alimentação e abrigo e, segundo a tradição histórica, possuía instalações capazes de atender às necessidades dos tropeiros e de seus animais.

A produção agrícola também era diversificada. O clima serrano favorecia o cultivo de espécies que encontravam dificuldades para prosperar nas áreas mais quentes do litoral. Entre as frutas mencionadas nas fontes encontram-se figos, uvas, pêssegos, marmelos, maçãs e outras espécies de origem europeia. A fazenda também produzia milho e mantinha criação de gado.

Uma atividade particularmente interessante era a fabricação artesanal de ferraduras. A existência dessa manufatura relacionava-se diretamente à posição da propriedade no sistema de circulação do Caminho Novo, uma vez que as tropas que percorriam a serra dependiam constantemente da manutenção dos animais.

A Fazenda do Padre Correia pode, portanto, ser entendida não apenas como uma propriedade agrícola, mas como um pequeno núcleo econômico integrado às redes comerciais que ligavam o litoral fluminense às regiões de mineração e abastecimento.

A morte do Padre Correia e a sucessão da propriedade

Antônio Tomás de Aquino Correia faleceu em 19 de junho de 1824, aos 65 anos. Após sua morte, a propriedade passou à sua família, ficando associada à sua irmã, Dona Arcângela Joaquina da Silva.

A morte do sacerdote ocorreu em um momento particularmente significativo da história brasileira. O país havia conquistado a Independência havia apenas dois anos e encontrava-se sob o governo de D. Pedro I.

Pouco antes e depois desse período, a Fazenda do Padre Correia começaria a adquirir uma importância ainda maior em razão da presença da Família Imperial.

D. Pedro I e a Fazenda do Padre Correia

A relação entre D. Pedro I e a região serrana começou, segundo a documentação histórica, durante sua viagem a Minas Gerais em 1822. O imperador hospedou-se na Fazenda do Padre Correia e ficou profundamente impressionado com a paisagem e, sobretudo, com o clima ameno da serra. O Museu Imperial registra que essa passagem pela fazenda foi decisiva para que D. Pedro I desenvolvesse o projeto de possuir uma propriedade na região.

A presença imperial não foi apenas ocasional. D. Pedro I retornaria diversas vezes à região, acompanhado de membros da Família Imperial.

Um dos fatores que contribuíram para o interesse do monarca foi a saúde de sua filha, a princesa D. Paula Mariana. A permanência na serra era considerada benéfica, em razão das condições climáticas e ambientais, e a família imperial passou a utilizar a Fazenda do Padre Correia como local de repouso.

A fazenda transformou-se, desse modo, em um espaço de convivência entre a elite rural serrana e a Corte imperial.

A tentativa de compra da Fazenda do Padre Correia

O interesse de D. Pedro I pela propriedade aumentou ao longo da década de 1820. O imperador desejava adquirir a fazenda para utilizá-la como residência de campo e como local de permanência da família durante os períodos mais quentes do ano.

A proposta, entretanto, não foi aceita pela proprietária, Dona Arcângela Joaquina, que teria alegado razões familiares para não vender a propriedade.

O episódio é particularmente importante porque demonstra que a aquisição das terras que posteriormente dariam origem a Petrópolis não resultou simplesmente de uma escolha prévia e planejada do imperador. A compra da Fazenda do Córrego Seco ocorreu, em grande medida, como consequência da impossibilidade de aquisição da propriedade vizinha.

De acordo com a tradição historiográfica preservada pelo Instituto Histórico de Petrópolis e pelo Museu Imperial, foi a própria Dona Arcângela quem indicou a D. Pedro I a existência da Fazenda do Córrego Seco, então pertencente ao Sargento-Mor José Vieira Afonso.

A Fazenda do Córrego Seco

A Fazenda do Córrego Seco possuía história anterior à sua aquisição pelo imperador.

Segundo o Instituto Histórico de Petrópolis, a propriedade correspondia a parte da antiga sesmaria atribuída a Bernardo Soares de Proença. A denominação “Córrego Seco” estaria relacionada ao curso d'água posteriormente identificado como Rio Palatino, que, em determinados períodos do ano, apresentava reduzido volume ou chegava a secar.

A propriedade passou por diferentes proprietários e encontrava-se em situação menos próspera que a Fazenda do Padre Correia. A tradição histórica descreve suas terras como pouco aproveitadas e sua sede em condições precárias.

Foi nesse contexto que D. Pedro I decidiu adquirir a propriedade.

A compra por D. Pedro I

A aquisição da Fazenda do Córrego Seco constituiu um dos episódios fundamentais da história de Petrópolis.

Em 1830, D. Pedro I comprou a propriedade do Sargento-Mor José Vieira Afonso pelo valor de 20 contos de réis. O Museu Imperial confirma tanto o valor da transação quanto o ano da aquisição.

O documento preservado pelo Instituto Histórico de Petrópolis registra, de forma mais precisa, a assinatura da escritura em 6 de fevereiro de 1830.

A compra não significou ainda a fundação de Petrópolis. A cidade somente seria criada formalmente mais de uma década depois, durante o Segundo Reinado. Entretanto, a aquisição do Córrego Seco estabeleceu a base patrimonial sobre a qual, posteriormente, D. Pedro II desenvolveria o projeto de construção de uma residência de verão e de criação da povoação imperial.

D. Pedro I chegou a atribuir à propriedade uma nova denominação: Fazenda da Concórdia. O nome estava relacionado ao projeto de construção de um futuro Palácio da Concórdia, expressão das aspirações políticas do monarca em um período marcado por conflitos entre o governo imperial e diferentes setores da sociedade brasileira.

O projeto, contudo, não se concretizou. Em 7 de abril de 1831, D. Pedro I abdicou do trono brasileiro e retornou posteriormente a Portugal. A propriedade permaneceu no patrimônio da família imperial e seria herdada por seu filho, D. Pedro II.

Da Fazenda do Córrego Seco a Petrópolis

A importância histórica da aquisição realizada em 1830 somente pode ser plenamente compreendida quando observada em perspectiva.

D. Pedro I não chegou a construir o palácio que havia imaginado. Coube a seu filho, D. Pedro II, transformar aquele projeto em realidade.

Em 16 de março de 1843, D. Pedro II assinou o Decreto Imperial nº 155, que determinou o arrendamento das terras da Fazenda do Córrego Seco para a formação da povoação de Petrópolis e estabeleceu as bases para a construção do Palácio Imperial.

A execução do projeto ficou ligada à atuação do major Júlio Frederico Koeler, responsável pelo planejamento da nova povoação, pela organização dos quarteirões e por importantes obras de infraestrutura.

A construção do palácio teve início em 1845, e a nova povoação passou a receber imigrantes, sobretudo germânicos, integrados ao projeto de colonização e urbanização concebido para a região. A antiga Fazenda do Córrego Seco transformava-se, gradualmente, no núcleo de uma cidade planejada para servir de residência de verão à Família Imperial.

Considerações finais

A história de Petrópolis começou muito antes de 1843. A cidade imperial nasceu sobre um território que já possuía história, proprietários, caminhos, capelas, fazendas e atividades econômicas consolidadas.

Nesse processo, a Fazenda do Padre Correia ocupa lugar de especial relevância. Sua existência demonstra a importância econômica adquirida pelo vale do Piabanha durante o período colonial e início do Império, enquanto sua relação com D. Pedro I estabeleceu uma ponte entre a antiga ocupação rural e o futuro projeto imperial.

A tentativa frustrada de compra da Fazenda do Padre Correia conduziu o imperador à propriedade vizinha, a Fazenda do Córrego Seco. A aquisição desta, realizada em 1830, por 20 contos de réis, representou um acontecimento decisivo, ainda que Petrópolis só viesse a ser formalmente fundada treze anos depois.

Pode-se afirmar, portanto, que existe uma linha histórica que conecta as antigas sesmarias à Fazenda do Padre Correia, desta à presença de D. Pedro I e, finalmente, à aquisição do Córrego Seco. Sobre essa propriedade seria erguido o Palácio Imperial e se desenvolveria a povoação que recebeu o nome de Petrópolis.

A história da cidade, nesse sentido, não começou com a chegada dos primeiros colonos germânicos nem com a assinatura do Decreto de 1843. Esses acontecimentos foram etapas posteriores de um processo mais antigo, cuja origem deve ser buscada na ocupação do vale do Piabanha, na formação das grandes propriedades rurais e nas redes econômicas e familiares que estruturaram a Serra da Estrela.

A Fazenda do Padre Correia e a Fazenda do Córrego Seco constituem, assim, dois capítulos inseparáveis da história de Petrópolis: a primeira representa a sociedade rural que precedeu a cidade imperial; a segunda, a propriedade que permitiu à Família Imperial transformar um antigo caminho de passagem em um dos mais importantes núcleos urbanos planejados do Brasil oitocentista.

Referências bibliográficas

RABAÇO, Henrique José. História de Petrópolis. Petrópolis: Instituto Histórico de Petrópolis, 1985.

INSTITUTO HISTÓRICO DE PETRÓPOLIS. Curso de História de Petrópolis. Petrópolis: Instituto Histórico de Petrópolis.

INSTITUTO HISTÓRICO DE PETRÓPOLIS. Resumo histórico – Petrópolis. Texto de Gabriel Kopke Fróes. Petrópolis: Prefeitura Municipal de Petrópolis/Acervo Histórico Gabriel Kopke Fróes.

MUSEU IMPERIAL. Histórico e personagens. Petrópolis: Instituto Brasileiro de Museus.

PETRÓPOLIS. Prefeitura Municipal. Nossa História. TurisPetro – Secretaria de Turismo.

PETRÓPOLIS. Prefeitura Municipal. História. TurisPetro – Secretaria de Turismo.

RIO DE JANEIRO. Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa. Museu Imperial. Rio de Janeiro: SECEC-RJ.

Fonte primária

CERTIDÃO DE BATISMO DE ANTÔNIO TOMÁS DE AQUINO CORREIA, 1759. Registro paroquial da freguesia de Nossa Senhora da Piedade de Inhomirim, Capela de Nossa Senhora do Amor de Deus, Rio da Cidade.

Documento relacionado

BRASIL. Decreto Imperial nº 155, de 16 de março de 1843. Dispõe sobre o arrendamento da Fazenda do Córrego Seco e estabelece as bases para a formação da povoação de Petrópolis.

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