A FAZENDA DO PADRE CORREIA E A
AQUISIÇÃO DA FAZENDA DO CÓRREGO SECO POR D. PEDRO I
Introdução
A história
da formação de Petrópolis não pode ser compreendida exclusivamente a partir do
Decreto Imperial nº 155, de 16 de março de 1843, que determinou a criação da
povoação-palácio e deu início ao processo de organização urbana que resultaria
na cidade. As origens desse processo remontam a uma ocupação muito anterior da
região serrana, marcada pela concessão de sesmarias, pela abertura dos caminhos
em direção às Minas Gerais e pela formação de grandes propriedades rurais ao
longo do vale do Piabanha.
Entre
essas propriedades, duas assumiriam papel particularmente importante para a
história petropolitana: a Fazenda do Padre Correia, situada na região que
posteriormente receberia o nome de Corrêas, e a Fazenda do Córrego Seco,
localizada na área central da atual Petrópolis. A relação entre ambas tornou-se
decisiva a partir das primeiras décadas do século XIX, quando o imperador D.
Pedro I passou a frequentar a região serrana e manifestou interesse em
estabelecer ali uma residência de campo.
A
trajetória dessas duas fazendas revela, portanto, um processo histórico que
antecede em várias décadas a fundação oficial de Petrópolis. Revela também a
importância dos antigos caminhos coloniais, da atividade agrícola e
manufatureira, das redes familiares de proprietários rurais e, posteriormente, dos
interesses da própria Família Imperial na ocupação da Serra da Estrela.
A ocupação
do vale do Piabanha
A ocupação
luso-brasileira da região serrana do atual município de Petrópolis esteve
relacionada à expansão dos caminhos que ligavam o litoral fluminense às áreas
mineradoras de Minas Gerais. A abertura do Caminho Novo, no século XVIII,
contribuiu para transformar a região em importante zona de passagem de
tropeiros, viajantes e mercadorias.
As
primeiras sesmarias concedidas no chamado “sertão de serra acima do Inhomirim”
remontam ao final do século XVII. Entretanto, a ocupação econômica mais efetiva
ganhou impulso posteriormente, quando os caminhos passaram a permitir maior
circulação de pessoas e produtos. A região onde mais tarde surgiria Petrópolis
já apresentava, portanto, propriedades rurais consolidadas antes da chegada do
projeto imperial de fundação da cidade.
Entre
essas propriedades destacava-se a Fazenda do Padre Correia. Sua localização,
próxima ao Caminho Novo, favoreceu o desenvolvimento de atividades agrícolas e
comerciais e tornou a fazenda importante ponto de apoio aos viajantes que
atravessavam a serra em direção às Minas Gerais.
A
importância econômica da propriedade é registrada tanto pela tradição histórica
petropolitana quanto pelos relatos de viajantes estrangeiros. O Instituto
Histórico de Petrópolis destaca que a fazenda era conhecida pela produção de
frutas, pela fabricação artesanal de ferraduras e pela hospitalidade oferecida
aos viajantes.
Antônio
Tomás de Aquino Correia
Antônio
Tomás de Aquino Correia, posteriormente conhecido como Padre Correia, nasceu em
1759, na região do Rio da Cidade. Sua origem familiar está ligada a importantes
proprietários rurais que participaram da ocupação das terras do vale do
Piabanha.
A certidão
de batismo apresentada na documentação histórica constitui uma fonte primária
particularmente relevante para o estudo de sua trajetória:
“Aos 15
dias do mês de Abril de 1759, na Capela de Nossa Senhora do Amor de Deus, no
Rio da Cidade, filial desta freguesia de Nossa Senhora da Piedade do Inhomirim,
batizou e pôs os santos óleos de licença o reverendo padre Manuel Gonçalves
Ramos a ANTONIO, filho legítimo de Manuel Correia da Silva e de sua mulher
Brites Maria de Assunção Goulão, neto paterno de Antonio Correia e de Maria
Marques da Silva e materno de Manuel Antunes Goulão e de Caetana de Assunção.
Foram padrinhos Antonio Rodrigues Sá e Ana Maria, mulher do dito, todos
fregueses desta freguesia.”
A
documentação permite situar Antônio no interior de uma rede familiar
proprietária de terras na região serrana. Seu pai, Manuel Correia da Silva,
estava relacionado às terras do Rio da Paciência, enquanto sua mãe, Brites
Maria de Assunção Goulão, era descendente de Manuel Antunes Goulão, associado à
sesmaria do Rio da Cidade.
Essa rede
de parentesco foi fundamental para a formação de um amplo patrimônio fundiário
familiar, posteriormente relacionado às propriedades que se desenvolveriam em
diferentes áreas da atual Petrópolis.
O
sacerdote e administrador rural
A formação
de Antônio Correia não se restringiu à administração de propriedades rurais.
Segundo a historiografia local, ele dedicou-se aos estudos humanísticos e
teológicos, seguindo posteriormente a carreira eclesiástica e sendo ordenado
sacerdote em 1783.
Sua
atuação religiosa esteve intimamente vinculada à própria organização social da
região. Em uma sociedade rural, na qual as distâncias entre as propriedades
eram grandes e os núcleos urbanos ainda inexistiam, as capelas desempenhavam
papel fundamental na vida comunitária.
A Capela
de Nossa Senhora do Amor de Deus, associada à família Correia, tornou-se um
importante espaço religioso da região. A propriedade da família funcionava,
simultaneamente, como unidade produtiva, local de residência e ponto de apoio
aos viajantes.
A
trajetória do Padre Correia demonstra, assim, uma característica comum às
elites rurais do período colonial e do início do Império: a concentração, em
uma mesma família, de patrimônio fundiário, influência econômica e participação
na vida religiosa local.
A Fazenda
do Padre Correia
A
propriedade que posteriormente seria conhecida como Fazenda do Padre Correia
constituiu-se em uma das mais importantes unidades agrícolas do vale do
Piabanha.
Sua
posição junto ao caminho que conduzia às Minas Gerais era estratégica. O fluxo
constante de tropas transformava a hospedagem de viajantes em atividade
economicamente relevante. A fazenda oferecia alimentação e abrigo e, segundo a
tradição histórica, possuía instalações capazes de atender às necessidades dos
tropeiros e de seus animais.
A produção
agrícola também era diversificada. O clima serrano favorecia o cultivo de
espécies que encontravam dificuldades para prosperar nas áreas mais quentes do
litoral. Entre as frutas mencionadas nas fontes encontram-se figos, uvas,
pêssegos, marmelos, maçãs e outras espécies de origem europeia. A fazenda
também produzia milho e mantinha criação de gado.
Uma
atividade particularmente interessante era a fabricação artesanal de
ferraduras. A existência dessa manufatura relacionava-se diretamente à posição
da propriedade no sistema de circulação do Caminho Novo, uma vez que as tropas que
percorriam a serra dependiam constantemente da manutenção dos animais.
A Fazenda
do Padre Correia pode, portanto, ser entendida não apenas como uma propriedade
agrícola, mas como um pequeno núcleo econômico integrado às redes comerciais
que ligavam o litoral fluminense às regiões de mineração e abastecimento.
A morte do
Padre Correia e a sucessão da propriedade
Antônio
Tomás de Aquino Correia faleceu em 19 de junho de 1824, aos 65 anos. Após sua
morte, a propriedade passou à sua família, ficando associada à sua irmã, Dona
Arcângela Joaquina da Silva.
A morte do
sacerdote ocorreu em um momento particularmente significativo da história
brasileira. O país havia conquistado a Independência havia apenas dois anos e
encontrava-se sob o governo de D. Pedro I.
Pouco
antes e depois desse período, a Fazenda do Padre Correia começaria a adquirir
uma importância ainda maior em razão da presença da Família Imperial.
D. Pedro I
e a Fazenda do Padre Correia
A relação
entre D. Pedro I e a região serrana começou, segundo a documentação histórica,
durante sua viagem a Minas Gerais em 1822. O imperador hospedou-se na Fazenda
do Padre Correia e ficou profundamente impressionado com a paisagem e,
sobretudo, com o clima ameno da serra. O Museu Imperial registra que essa
passagem pela fazenda foi decisiva para que D. Pedro I desenvolvesse o projeto
de possuir uma propriedade na região.
A presença
imperial não foi apenas ocasional. D. Pedro I retornaria diversas vezes à
região, acompanhado de membros da Família Imperial.
Um dos
fatores que contribuíram para o interesse do monarca foi a saúde de sua filha,
a princesa D. Paula Mariana. A permanência na serra era considerada benéfica,
em razão das condições climáticas e ambientais, e a família imperial passou a
utilizar a Fazenda do Padre Correia como local de repouso.
A fazenda
transformou-se, desse modo, em um espaço de convivência entre a elite rural
serrana e a Corte imperial.
A
tentativa de compra da Fazenda do Padre Correia
O
interesse de D. Pedro I pela propriedade aumentou ao longo da década de 1820. O
imperador desejava adquirir a fazenda para utilizá-la como residência de campo
e como local de permanência da família durante os períodos mais quentes do ano.
A
proposta, entretanto, não foi aceita pela proprietária, Dona Arcângela
Joaquina, que teria alegado razões familiares para não vender a propriedade.
O episódio
é particularmente importante porque demonstra que a aquisição das terras que
posteriormente dariam origem a Petrópolis não resultou simplesmente de uma
escolha prévia e planejada do imperador. A compra da Fazenda do Córrego Seco
ocorreu, em grande medida, como consequência da impossibilidade de aquisição da
propriedade vizinha.
De acordo
com a tradição historiográfica preservada pelo Instituto Histórico de
Petrópolis e pelo Museu Imperial, foi a própria Dona Arcângela quem indicou a
D. Pedro I a existência da Fazenda do Córrego Seco, então pertencente ao
Sargento-Mor José Vieira Afonso.
A Fazenda
do Córrego Seco
A Fazenda
do Córrego Seco possuía história anterior à sua aquisição pelo imperador.
Segundo o
Instituto Histórico de Petrópolis, a propriedade correspondia a parte da antiga
sesmaria atribuída a Bernardo Soares de Proença. A denominação “Córrego Seco”
estaria relacionada ao curso d'água posteriormente identificado como Rio
Palatino, que, em determinados períodos do ano, apresentava reduzido volume ou
chegava a secar.
A
propriedade passou por diferentes proprietários e encontrava-se em situação
menos próspera que a Fazenda do Padre Correia. A tradição histórica descreve
suas terras como pouco aproveitadas e sua sede em condições precárias.
Foi nesse
contexto que D. Pedro I decidiu adquirir a propriedade.
A compra
por D. Pedro I
A
aquisição da Fazenda do Córrego Seco constituiu um dos episódios fundamentais
da história de Petrópolis.
Em 1830,
D. Pedro I comprou a propriedade do Sargento-Mor José Vieira Afonso pelo valor
de 20 contos de réis. O Museu Imperial confirma tanto o valor da transação
quanto o ano da aquisição.
O
documento preservado pelo Instituto Histórico de Petrópolis registra, de forma
mais precisa, a assinatura da escritura em 6 de fevereiro de 1830.
A compra
não significou ainda a fundação de Petrópolis. A cidade somente seria criada
formalmente mais de uma década depois, durante o Segundo Reinado. Entretanto, a
aquisição do Córrego Seco estabeleceu a base patrimonial sobre a qual,
posteriormente, D. Pedro II desenvolveria o projeto de construção de uma
residência de verão e de criação da povoação imperial.
D. Pedro I
chegou a atribuir à propriedade uma nova denominação: Fazenda da Concórdia. O
nome estava relacionado ao projeto de construção de um futuro Palácio da
Concórdia, expressão das aspirações políticas do monarca em um período marcado
por conflitos entre o governo imperial e diferentes setores da sociedade
brasileira.
O projeto,
contudo, não se concretizou. Em 7 de abril de 1831, D. Pedro I abdicou do trono
brasileiro e retornou posteriormente a Portugal. A propriedade permaneceu no
patrimônio da família imperial e seria herdada por seu filho, D. Pedro II.
Da Fazenda
do Córrego Seco a Petrópolis
A
importância histórica da aquisição realizada em 1830 somente pode ser plenamente
compreendida quando observada em perspectiva.
D. Pedro I
não chegou a construir o palácio que havia imaginado. Coube a seu filho, D.
Pedro II, transformar aquele projeto em realidade.
Em 16 de
março de 1843, D. Pedro II assinou o Decreto Imperial nº 155, que determinou o
arrendamento das terras da Fazenda do Córrego Seco para a formação da povoação
de Petrópolis e estabeleceu as bases para a construção do Palácio Imperial.
A execução
do projeto ficou ligada à atuação do major Júlio Frederico Koeler, responsável
pelo planejamento da nova povoação, pela organização dos quarteirões e por
importantes obras de infraestrutura.
A
construção do palácio teve início em 1845, e a nova povoação passou a receber
imigrantes, sobretudo germânicos, integrados ao projeto de colonização e
urbanização concebido para a região. A antiga Fazenda do Córrego Seco
transformava-se, gradualmente, no núcleo de uma cidade planejada para servir de
residência de verão à Família Imperial.
Considerações
finais
A história
de Petrópolis começou muito antes de 1843. A cidade imperial nasceu sobre um
território que já possuía história, proprietários, caminhos, capelas, fazendas
e atividades econômicas consolidadas.
Nesse
processo, a Fazenda do Padre Correia ocupa lugar de especial relevância. Sua
existência demonstra a importância econômica adquirida pelo vale do Piabanha
durante o período colonial e início do Império, enquanto sua relação com D.
Pedro I estabeleceu uma ponte entre a antiga ocupação rural e o futuro projeto
imperial.
A
tentativa frustrada de compra da Fazenda do Padre Correia conduziu o imperador
à propriedade vizinha, a Fazenda do Córrego Seco. A aquisição desta, realizada
em 1830, por 20 contos de réis, representou um acontecimento decisivo, ainda
que Petrópolis só viesse a ser formalmente fundada treze anos depois.
Pode-se
afirmar, portanto, que existe uma linha histórica que conecta as antigas
sesmarias à Fazenda do Padre Correia, desta à presença de D. Pedro I e, finalmente,
à aquisição do Córrego Seco. Sobre essa propriedade seria erguido o Palácio
Imperial e se desenvolveria a povoação que recebeu o nome de Petrópolis.
A história
da cidade, nesse sentido, não começou com a chegada dos primeiros colonos
germânicos nem com a assinatura do Decreto de 1843. Esses acontecimentos foram
etapas posteriores de um processo mais antigo, cuja origem deve ser buscada na
ocupação do vale do Piabanha, na formação das grandes propriedades rurais e nas
redes econômicas e familiares que estruturaram a Serra da Estrela.
A Fazenda
do Padre Correia e a Fazenda do Córrego Seco constituem, assim, dois capítulos
inseparáveis da história de Petrópolis: a primeira representa a sociedade rural
que precedeu a cidade imperial; a segunda, a propriedade que permitiu à Família
Imperial transformar um antigo caminho de passagem em um dos mais importantes
núcleos urbanos planejados do Brasil oitocentista.
Referências bibliográficas
RABAÇO, Henrique José. História
de Petrópolis. Petrópolis: Instituto Histórico de Petrópolis, 1985.
INSTITUTO HISTÓRICO DE
PETRÓPOLIS. Curso de História de Petrópolis. Petrópolis: Instituto
Histórico de Petrópolis.
INSTITUTO HISTÓRICO DE
PETRÓPOLIS. Resumo histórico – Petrópolis. Texto de Gabriel Kopke Fróes.
Petrópolis: Prefeitura Municipal de Petrópolis/Acervo Histórico Gabriel Kopke
Fróes.
MUSEU IMPERIAL. Histórico e
personagens. Petrópolis: Instituto Brasileiro de Museus.
PETRÓPOLIS. Prefeitura
Municipal. Nossa História. TurisPetro – Secretaria de Turismo.
PETRÓPOLIS. Prefeitura
Municipal. História. TurisPetro – Secretaria de Turismo.
RIO DE JANEIRO. Secretaria de
Estado de Cultura e Economia Criativa. Museu Imperial. Rio de Janeiro:
SECEC-RJ.
Fonte primária
CERTIDÃO DE BATISMO DE ANTÔNIO
TOMÁS DE AQUINO CORREIA, 1759. Registro paroquial da freguesia de Nossa Senhora
da Piedade de Inhomirim, Capela de Nossa Senhora do Amor de Deus, Rio da
Cidade.
Documento relacionado
BRASIL. Decreto Imperial nº
155, de 16 de março de 1843. Dispõe sobre o arrendamento da Fazenda do Córrego
Seco e estabelece as bases para a formação da povoação de Petrópolis.
Meu email é luiz.mat@hotmail.com.
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