terça-feira, 30 de abril de 2013

A ESTRADA DE FERRO DE PETRÓPOLIS



Alcindo Sodré


A primeira linha férrea construída no Brasil foi a da Imperial Companhia de Navegação a Vapor e Estrada de Ferro de Petrópolis, por concessão feita a Irineu Evangelista de Souza, pelo decreto do Poder Executivo de 12 de Junho de 1852.
A inauguração do primeiro trecho concluído, que ia do Porto de Mauá até ao Fragoso próximo da Raiz da Serra, verificou-se a 30 de Abril de 1854.
As solenidades festivas estiveram bem à altura da importância do empreendimento.
Logo pela manhã desse dia inúmeras embarcações partiram do Rio de Janeiro carregadas de gente que desejava alcançar o porto de Mauá antes de Suas Majestades e sua corte, para apreciar em todos os seus detalhes, as cerimônias com que seria consagrado o inicio de tão importante melhoramento para a vida nacional.
A hora aprazada atracou o navio que conduzia Suas Majestades e logo uma girândola de foguetes anunciou o seu desembarque. Inúmeras bandeiras agitavam-se ao vento, como que partilhando das estrondosas saudações e dos acordes de uma banda marcial. Suas majestades recebidas pelo diretor da empresa atravessam duas extensas de pessoas, acompanhados por notáveis do império, dirigindo-se para o local destinado. Um dos grandes armazéns de ferro, tinha sido preparado com a galerias para acomodar os assistentes tendo ao centro dispostos, não só os tronos do Imperador e da Imperatriz, como a capela e o altar improvisados onde o bispo iria celebrar, bem como os lugares, distintos para os ministros de Estado e o corpo diplomático.
Quando o Imperador tomou o lugar que lhe tinha sido reservado, principiou o cerimonial da benção das locomotivas, ao som de música apropriada ao ato.
Feito o que, as máquinas preparam-se para a viagem. Pedro II e Thereza Cristina foram conduzidos a seu carro pelo sr. Irineu Evangelista de Souza, enquanto os demais convidados tomavam assento em outras seções, partiu o trem sob delirantes vivas da multidão entusiasmada.
Soldados da Guarda Nacional estavam postados ao longo da linha e todas as alturas estavam cheias de espectadores.
A chegada do comboio ao Fragoso foi saudada por foguetes. Suas Majestades e comitiva desceram e foram servidos de refrescos, voltando logo depois para Mauá, caminhando o trem, numa média de 35 milhas por hora.
O Imperador e sua consorte, ao aparecerem manifestaram a viva satisfação de que se achavam possuídos e a agradável impressão que se inaugurava no Brasil.
Irineu de Souza, presidente da empresa, dirigiu-se então a S. M. Imperador, discorrendo com precisão sobre as vantagens que as estradas de ferro trariam ao Império e estas foram as suas ultimas palavras:
“Este caminho de ferro, Senhor, não será destinado a circunscrever-se dentro dos atuais limites, e se me é licito contar coma proteção de V.M.I., ele certamente não terminará sem que sua mais vasta estação seja colocada na margem esquerda do Rio das Velhas. Ali se acumularão, para ser transportadas ao mercado do Rio, essas imensas massas de produção, com que contribuirá para a prosperidade pública, a região banhada por essa importante, arteira fluvial do Rio São Francisco. Será então, Senhor, que a majestosa Bahia, cujas águas banham as costas da capital do Império, verá seus espaçosos e abrigados ancoradouros cobertos de inumeráveis navios. Então, Senhor, será o Rio de Janeiro o centro do comércio, da industria da saúde, da civilização e da força, nada tendo que invejar a lugar algum do mundo.”
S.M. o Imperador, assim lhe respondeu:
“Os diretores da Imperial Estrada de Ferro de Petrópolis e da Companhia de Navegação a Vapor podem ficar certos de que por igual compartilho o seu regozijo na estréia de uma empresa que tem de animar tão grandemente o comércio, as artes e a indústria deste Império.”
Nessa altura, S.M. conferiu ao Sr. Irineu de Souza, o título de Barão de Mauá, em reconhecimento dos serviços prestados a Pátria.
Acompanhado pelo Barão de Mauá e engenheiros, Sua Majestade percorreu depois as obras de linha e as oficinas.
 A estação tinha sido grandemente enfeitada e nela se achava servido farto banquete, do qual participaram o Imperador e seu séquito, bem como todas as pessoas gradas, enquanto outros três partiam, conduzindo muitos espectadores.
Em 1858, a conhecida revista britânica “London Illustrated News”, dedicou interessante crônica, com gravuras, sobre esse memorável acontecimento nacional e nela foi escrito o seguinte:
“Quando refletimos que as obras deste caminho de ferro foram executadas no curto espaço de 20 meses, debaixo dos ardentes raios de um Sol Tropical e tão grande distância da Inglaterra, não podemos regatear louvores aqueles que se abalançaram a semelhante obra.
Felicitamos sinceramente os brasileiros pelo nobre espírito que desenvolveram no começo dessa obra de tanta magnitude.”
Em 26 de Março de 1856, no Relátorio da Imperial Companhia de Vapor e Estrada de Ferro de Petrópolis apresentado a Assembleia Geral de Acionistas, o Sr. Barão de Mauá, como seu presidente, dizia:
“ Acha-se concluído o trilho até a Raiz da Serra. Toda a estrada acha-se no melhor estado, tendo resistido a notáveis provações em conseqüência das grandes enchentes que temos presenciados nos últimos seis meses, sendo uma delas superior a qualquer outra das que se tem observado desde o ano de 1854.
A solidez da construção da estrada de ferro de Mauá não pode, pois ser mais posta em dúvida. Uma linha férrea singela, constituída sobre um terreno, parte do qual não podia ser pior para semelhantes construções, e que o trânsito público tenha sido interrompido um só dia, está a prova de tudo.
A estação do Alto da Serra no começo, da Vila Thereza, compõe-se de um vasto edifício de ferro. O elevado algarismo que representa o custo desta estação foi em parte devido à enormidade do serviço de aterros que foi preciso fazer naquela localidade.
A estação da Raiz da Serra, que se compõe de três  grandes armazéns de ferro, chegou de Inglaterra em principio os vapores “Guarani”, “Mauá” e “Piabanha”. Transitaram na linha férrea no ano próximo passado, 31.3982 passageiros, produzindo a renda de 126:796$800.”
E nas considerações gerais sobre a importância da obra realizada, escreveu ainda o Barão de Mauá:
 “Se a produção em obediência a condições naturais se opera a grandes distâncias do litoral, forçoso é franquear-lhe passagem rápida e econômica até os grandes mercados do litoral , sob pena de retrogradar o país, de perigar a civilização. Os meios primitivos que eram até agora facultados a produção para vir procurar mercado, não bastam para vir procurar mercado, não bastam para satisfazer as exigências crescentes da nossa riqueza agrícola. O valor do produto transportado mesmo de distancias moderadas é quase que absorvido pelas despesas do semelhantes estado não pode, não deve continuar. E ao clamor público que já se fez ouvir, ao brado unânime de – Estradas! – e repercute de todos os ângulos do Império, respondem finalmente os governantes – Estradas!”
O prolongamento da linha férrea até Petrópolis, que se verificaria após trinta anos do tráfego existentes na baixada foi vencendo aos poucos, as dificuldades da serra. A 4 de Janeiro de 1883, passava o primeiro trem pelo viaduto da Grota Funda. O fato constituiu festa local com grande afluência de povo. O trem composto de uma locomotiva e três carros levavam a diretoria da Estrada e sua comitiva. Em bosque ao lado da cachoeira da Grota Funda, foi servido esplendido almoço, tocando na ocasião a banda “15 de Março”. Entre os oradores discursou o senador Christiano Ottoni, enaltecendo a obra dos engenheiros patrícios e em especial a figura do Barão de Mauá, “o pioneiro da estrada de ferro no Brasil”.
E a 11 de Fevereiro do mesmo ano, pelas 9 horas da manhã de um domingo, chegava a Petrópolis a primeira locomotiva, conduzindo S. M. o Imperador e grande número de passageiros vindo da Corte. Ficou, assim completado o trecho da serra até Petrópolis, construído que foi pelo engenheiro Joaquim Lisboa, com auxilio de Marcellino Ramos. O sistema da serra, em cremalheira, era o do europeu Nicolau Rigenbach. Foram seus concessionários Berrini e os Calógeras (Miguel e Pandiá) e da companhia que então se organizou (Estrada de Ferro Príncipe Grão Pará, com plano de estender-se até S. José do Rio Preto) foi presidente o Sr. João da Silva Coutinho.
A 30 de Abril de 1884, presentes na estação de Petrópolis, o juiz de Direito e demais autoridades, a diretoria da Companhia Príncipe Grão Pará e muitos espectadores, foram inaugurados o busto do Visconde de Mauá, em comemoração, ao 30° aniversário da abertura ao trafego da primeira via ferra do país.
Falou, em saudação a Mauá, que se achava presente o presidente da diretoria João Martins da Silva Coutinho, de cujas palavras constaram as seguintes:
“Para vencer a serra da Estrela, despendeu o Visconde de Mauá avultados capitais em diversas tentativas e ainda foi o primeiro que mandou estudar na serra a aplicação do sistema de cremalheira. Dando assim o mais solene testemunho do apreço em que tem os importantes serviços do Visconde de Mauá, a diretoria não só manifesta seus próprios sentimentos como também o dos acionistas da companhia que representa. Viva o Visconde de Mauá!”

Artigo publicado:
Trabalhos da Comissão do Centenário - Vol. II, 1939


NOTÍCIAS NOS JORNAIS DE PETRÓPOLIS SOBRE MACUMBAS NA CIDADE NA DÉCADA DE 1930


Jornal de Cascatinha
Domingo, 30 de novembro de 1930
ANO IV – NUMERO 176
página 2

MACUMBAS

 Na dilligencia effectuada em 11 do corrente, pela policia de Petrópolis, à rua Paulino Áfono, foi prezo Ramiro Ramos, como autor de “macumbas” e com elle trazidos á séde  da Região Policial os seguintes objectos:
 Uma caveira com um lenço encarnado amarrado, uma caçarolla de barro, uma panella de barro com pedaços de vela e varios bilhetes, um vidro de remédio, um punhal que foi encontrado enterrado, um molho de hervas medicinaes, pó de sapats, etc...
 Segundo apuramos na policia a caveira pertence aos despojos de um parente de distinta família petropolitana.
 O sapo encontrado com a bocca cosida, no Cemitério Municipal, foi obra dessa macumba.
 Um bilhete dizia assim:
 “Pai José, mando-lhe falar que o homem veio do Rio e tomou 2 banhos, um no dia que veiu e outro hontem. Está insupportável de se aturas e está tomando o remédio como o sr. Mandou e peço que o sr. me diga eu vou fazer doente.
João Borba”
 Um cartão de visitas de Frederico Mesquita, Cartographo 1º Distrito Artilharia da Costa – lia-se isso:
 “Vou jantar no Falcone e volto”.
 Diziam os autores da dilligencia policial que nos fundos da casa havia um Bode enterrado.

EM CASCATINHA TAMBÉM

 Quem teria feito? – Ninguém sabe. A verdade porém é que foi encontrado na subida para o Morro da Bôa Vista, na Estrada da Saudade, uma vela acesa ao lado de um frango assado, as 10hs da noite de quinta-feira. Arthur Viera e Arthur Pazeto ao passar por ali aquella hora da noite, viram esse “despacho”, tendo o primeiro dado um pontapé no tal trabalho, que se pressume tivesse sido feito naquelle momento.
 Policia, onde estaes que não respondes?...


Jornal de Cascatinha
Domingo, 2 de agosto de 1931
ANO IV – NUMERO 211
página 2

AS MACUMBAS

RECEBEMOS:

 “Ilmo. Snr. Redator do Jornal de Cascatinha.”
 Saudações.
 Leitor assíduo de vosso jornal, peço-vos por isso auxiliar-me na extirpação de mais uma nova calamidade que está assolando a nossa linda Petrópolis, e principalmente Cascatinha.
 Trata-se aqui dos “charlatões” de baixo e falso esperitismos ou seja: a “macumba” com todos os seus horrores praticada impunemente e com prejuízo e não pequeno para a sociedade. Sendo eu um operário da fabrica de tecido e chefe de família, sinto –me na obrigação de recorrer a vós para que seja repremida tão degradante, quanto atrazada pratica.
 Pessôas com pouca experiência, aliás como venho observando, deixam-se levar por outras já inciadas em tão errada doutrina, arrastando assim famílias inteiras que sujeitam a batuques e dansar durante toda noite, com acompanhamento de cantos bizarros e sem nexo – enfim, passam-se coisas inacreditáveis em tais casas.
 Segundo o tal chefe, para desenvolver um médium, agarram uma moça (ingênua, vá se dizendo!) pelos braços e sacodem-na até roxear-lhes os braços e isto é para desenvolver... e outras babuzeiras mais.
 Logares da Macumba:
 Picada da Saudade, Beco no Aterro Alto, Samambaia, Quarteirão Suisso em Petrópolis.
 A direcção cem deste ultimo bairro citado – uns mulatos que bancam o “Pai de Santo”.
 Peço vos auxiliar-me e bem assim à moral da família operaria de Cascatinha.
 Vosso assíduo leitor, F.K.Y”


Tribuna de Petrópolis
Quarta-feira, 20 de maio de 1931
ANO XXIX  Nº 116
1ª página

A POLICIA VAREJOU UMA “MACUMBA”

 Hontem, entre as 21 e 22 horas, a policia varejou uma “macumba” na Provisória, que se achava em plena sessão.
 Não podendo escapar, a turma toda, em numero de 22 pessoas, foi embarcada num autocaminhão, transformada em “viúva alegre” e conduzida á delegacia.
 Pouco tempo ali, estiveram, mandando-os embora o sr. subdelegado. É que os macumbeiros apresentaram documentos que lhes permitiram o funcionamento!!!

segunda-feira, 29 de abril de 2013

LENDA PETROPOLITANA: O SACI-PERERÊ DA MARIA COMPRIDA


 No rio da Cidade, 2º distrito do município e vale que se prolonga de Bonsucesso à Fazenda Inglesa, passando pelo local outrora conhecido por “Hespanhóis”, existe o elevado penhasco da Maria Comprida. Pela altitude, consistência rochosa e forma, lembra muito o Pão de Açúcar da Baia de Guanabara, Rio de Janeiro. Em torno dessa grande pedra de há alguns anos formou-se uma lenda.
 Sem dúvida, a tradição popular com relação ao fato é tão velha como o pequeno arraial abandonado que em ruínas se encontra nas proximidades da “Maria Comprida”.
“Maria Comprida”, pelo capricho de suas formas, pela arrogância galharda com que sobe aos céus, desperta logo a atenção do espectador:
 - Como seria esplendida uma excursão ao alto daquela pedra... Que panorama extraordinário se deve descortinar lá de cima...
 - Não caia nisso, advertirá logo qualquer morador daquela zona. E explicará.
 Antigamente, de vez em quando, alguém subia a montanha com intenção de alcançar o cume da elevação. Todos viam-no partir cheio de esperanças e resoluto mas... aquela pessoa nunca mais voltava a ser vista na localidade.
Tantos foram aqueles a quem aconteceu tal coisa que veio, afinal a explicação do sumiço dessas pessoas : Maria Comprida é habitada no seu cume, pelo Saci Pererê!
Saci Pererê, como se sabe é o ente fantástico negrinho de uma perna só, que persegue os viajantes ou arma para eles ciladas pelo caminho.
E os temerários que ousaram galgar as alturas de Maria Comprida ajustaram contas, todos eles, com Moleque Saci, desaparecendo para sempre.
Só uma vez, afirmavam os antigos, chegou a ser visto o Saci Pererê da Maria Comprida, mas tanto tempo faz que ninguém sabe explicar onde e como.
E durante muito tempo um velhinho curvado pelo peso da idade, a pessoa que, num humilde rancho de sapê, morava mais perto da pedra gigantesca, contava que o Saci Pererê ali estava para lembrar às criaturas a pequenez humana. E fazer-lhes ver o perigo das grandes alturas.
Na verdade, há na natureza obras que constituem verdadeiros símbolos da vontade do Criador. É preciso que, mesmo nas coisas terrenas a humanidade admire com respeito as obras de Deus, não procurando descobrir os seus mistérios.
E quem olhar para majestosa Maria Comprida compreenderá logo que as palavras do velhinhos são verdadeiras.




LENDA PETROPOLITANA: A VINGANÇA DO ESCRAVO


A grande moda da corte, em meados do século XIX, era construir casa de veraneio em Petrópolis.
Já começavam a aparecer, espalhadas pelos pontos pitorescos “as moradas de casas elegantes com jardins em que as flores da Europa fraternizam com as do Brasil” como nos fala Carlos Augusto Taunay em seu livro “Viagem Pitoresca a Petrópolis”.
José Carlos Mayrink da Silva Ferrão, não fugiu a regra. Tendo adquirido em 1850 de José Alexandre Alves Pereira Ribeiro Cisne, os prazos n˚. 127 128 e 129 do Quarteirão Vila Imperial, neles iniciou imediatamente a construção de sua casa de verão.
O belo terreno, situado bem em frente ao portão principal do Palácio Imperial, chegava até então a rua da Imperatriz, mas quando foi comprado a parte da frente já tinha sido reservada para construção de uma praça pública, atual praça da Águia.
Home bom, mas enérgico em demasia. Mayrink usou da mão de obra escrava, passando exigir o máximo de seus escravos através dos feitores. Queria, dizia ele, um edifício que pela solidez da construção resistisse a destruição do tempo, e que pela austeridade das linhas arquitetônicas, identificasse a bela época que Petrópolis vivia.
 E foi assim que tivemos “palacete sito atrás de um square armado, no centro de uma urna sobre pedestal, donde brota água”, muito mencionado pelos visitantes.
Ficara realmente muito bonito o solar plantado na graciosa elevação de terreno em meio à cerrada vegetação da mata. A praça recém aberta à frente dava-lhe ainda maior realce.
Era um prédio que honrava a vizinhança com o Palácio Imperial.
Entre os trabalhadores escravos empregados na construção havia um que era rançoso e vingativo, instigado, e quem sabe? Maltratado pelos feitores. Carregou pedra e madeira a valer e não houve piso e parede do solar que não tivesse recebido o suor do seu corpo robusto. Esse trabalho estava, porém, acima das forças do escravo, acabando por ficar doente e revoltado.
É verdade que, depois de pronto o prédio, o negro se alegrou com a beleza da obra, mas por pouco tempo, já que o ódio tomara conto do seu coração. E antes de morrer lançou uma maldição:
- Dia virá em que toda a beleza desse prédio será destruída pela mão do próprio homem!
Muitos anos se passaram sem que a maldição se realizasse.
Em 1879, morre José Carlo Mayrink da Silva Ferrão, assim o prédio passou pertencer à viúva Emilia Bernardes Mayrink, a qual em 1891, o vendeu a Francisco Paulo de Almeida, barão de Guaraciaba.
O barão foi um digno continuador das mais belas tradições do solar. Mas por pouco tempo, já que em 1894 era compelido a transferir a posse do imóvel à Câmara Municipal de Petrópolis.
Em 1891, quase que a maldição é comprida com a quase instalação de mercado público em frente ao prédio, autorizada pela Intendência Municipal, mas o ato nefasto de instalar um mercado ali, não se consumou, mais tarde se descobriu que foi um ato da Intendência de força a venda do prédio., para o Município.
Adquirindo o edifício, o Município tratou logo de fazer algumas mudanças no prédio transformando-o assim em Paço Municipal. E então o que se viu foi um desses milagres o casarão de Mayrink e de Guaraciaba ser transformado em um belo palácio, sua fachada foi realçada pela belíssima paisagem verde nos fundos conservada, passando assim a ser um dos cartões postais de Petrópolis.
A maldição parecia ter fim assim.
Porém anos mas tarde aquela paisagem que era uns dos cartões postais da cidade, como o Corcovado é para o Rio de Janeiro, não seria mais. Bem em frente a praça, a ponte de madeira foi substituído por uma de concreto, no lago que realçava a fachada do palácio, foi colocado um chafariz prejudicando assim a visão, aos fundos foi construído o prédio do Liceu Municipal com traços modernos, ao lado foi construído um horrível prédio em estilo moderno, para abrigar o a Biblioteca Municipal, mas acabou também abrigando a Fundação de Cultura e Turismo, o entorno do Praça Municipal foi transformado em estacionamento rotativo e o gramado hoje em dia é usado por jovens para se drogarem
E foi assim que a profecia do escravo se cumpriu... a beleza do prédio foi destruída pela mão do homem!

Jardim em frente ao prédio

Ponte de madeira


O Palácio Amarelo hoje

LENDA PETROPOLITANA: O ESTRANHO PASSAGEIRO DA MADRUGADA


Numa fria madrugada do nosso inverno um táxi dos poucos de tinham ousado permanecer no ponto da Bacia (atual Praça D. Pedro)foi levar um passageiro ao Quarteirão Brasileiro.
A Avenida Barão do Rio Branco, estava envolta toda ela, em pesada neblina e o frio, mesmo dentro do carro cortava.
O motorista, gélido e sonolento deixara o freguês em casa e, descendo o Quarteirão Brasileiro, pensava que o dia estava ganho e, portanto, o melhor a fazer seria ir para casa e dormir. E já sonhava com os cobertores, quando ao entra na Avenida Barão do Rio Branco novamente, um cidadão muito bem arrumado de fraque cinza, fez sinal para o táxi parar e pediu ao motorista que o levasse à casa do Barão do Rio Branco.
Como o novo destino não desvia do trajeto de sua cãs, o motorista abriu a porta do carro e o passageiro fazendo ranger as molas do veículo, tão pesado que era, sentou-se no banco traseiro.
Devagar tocou o carro em marcha lenta, pela rua acima. Ao chegar ao prédio de destino acendeu a luz, abriu a porta e esperou o passageiro sair, como o este se demorou muito a sair, o motorista se virou para trás e para seu espanto, não tinha ninguém no banco de trás.
Assustado, o homem saltou do veículo, olhou nervosamente em volta e correu ao portão do prédio.
Onde estaria o passageiro? Perguntava a si próprio atônito, parado no meio da rua.
E quando esta voltando para o carro para procurar o tal homem gordo trajando fraque, quando raciocinando melhor, estranhou, que tida sido mandado levar o passageiro para a Casa do Barão do Rio Branco, personalidade morta há tantos anos. E mais a fisionomia daquele homem era igual a  do Barão do Rio Branco!
Devia ser, então um espírito o estranho passageiro que tomara seu táxi!
Extremamente apavorado o motorista entrou no carro e em alta velocidade saiu daquele lugar. E até a época em que esta lenda foi publicada por Gabriel Kopke Froés, o motorista e arrepiava ao relembrar os momentos de terror, ao ver que o passageiro era o espírito do Barão do Rio Branco.


LENDA PETROPOLITANA: JORNAL.. NAL...NAL... NAL!...


Faz já muito tempo que moravam em subúrbio do Rio dois jovens pertencentes a famílias vizinhas, entre os quais diário acabou criando verdadeira amizade.
Da amizade ao amor, foi um passo e, um belo dia, um olhar mais terno, um sorriso, um encontro furtivo e eis que o amor explodiu forte e sincero no peito de Jorge e no coração de Marieta – os dois jovens vizinhos.
Eram pobres os dois mas que importava?... Lá na serra, ainda estava de pé a choupana em que Jorge nascera e se criara. Iriam viver lá!
O altar, a festinha em casa, a despedida na estação da estrada Ferro e foram-se os dois certo dia, rumo à serra em busca da felicidade.
A casinha em plena mata abrigou, por longo tempo, o que se podia chamar um casal feliz. Jorge, dedicando-se com afinco ao trabalho alcançara boa situação na fábrica; enquanto que Marieta, embora também trabalhando na mesma fábrica não se descuidava do trato da casa e do carinho devido ao marido.
Não possuíam filhos, e faina era grande e a localidade era erma e triste; mas os dois jovens sabiam com distrair o espírito. Aos domingos após a santa missa rezada na capelinha do povoado, tomavam o trem e subiam a Petrópolis para passar o dia, ou desciam ao Rio em visita a parentes.
Entretanto, uma notícia recebida do Rio viria transtornar completamente Jorge. Falecera um tio rico, legando-lhe uma pequena fortuna.
- Era o que nos faltava; agora você poderá ter, enfim, o conforto que merece. – dizia ele, todo satisfeito, à sua Marieta.
A notícia pertubara-o tanto que, ao invés de ficar chocado com a morte do parente. Joprge se alegrara com a perspectiva da herança.
Marieta, porém, recebeu a novidade friamente. Teve como que um pressentimento cruel...
 - Não vá buscar esse dinheiro que não nos faz falta. – dizia ela súplice ao esposo. Continuemos a viver, aqui neste cantinho, a nossa vida simples e sossegada.
Mas o rapaz a nada atendeu e foi para o Rio de Janeiro.
Passou um dia sem que Jorge voltasse. Era a primeira vez que os dois se separavam de maneira que a espera para Marieta foi deveras penosas
Na manhã seguinte, muito cedo ainda, já se achava ela, na pequenina estação do Meio da Serra, à espera do primeiro trem. Mas Jorge não chegou nele, nem nos outros. E foi muito abatida que voltou a noite, para o lar.
 - Está retido no Rio por causa das complicações do inventário, dizia ela para si mesma, tendo se acalmar.
 Mas, vinha-lhe logo a dúvida: por que não avisava?
Outra noite de agonia, transcorreu e novo dia despontou, trazendo talvez para Marieta a volta de Jorge.
Mas qual... ele não voltou naquele dia, nem nos que se seguiram.
Na casinha da serra, tudo é agora silêncio e tristeza. Ninguém mais vê, nem ouve a desolada Marieta.
A crueldade do golpe sofrido parece ter-lhe tirado a vontade e o raciocínio; já não trabalhava, não falava, nem parecia preocupar-se com o destino do marido.
Passa-se, porém outra noite... amanhece... lá fora, na floresta, gorgela a passarada, saudando o sol!
Súbito, estala na rua da casinha uma gargalhada... uma gargalhada... estridente, nervosa, diferente...
E Marieta que ora chora baixinho, ora balbucia palavras sem nexo, ora ri com estéprito.
A coitada não resistira a dor estava louca!
Mas eis que ela sai, enfim de casa, rumo a estação de trem, mal ouvira os primeiros apitos de trem galgando a serra. Percebe-se que entre outras coisas, ela murmura: - “Meu Deus, como não me lembrei de procurar noticias dele nos jornais? Ou então: “ Os jornais devem dizer o que houve com ele.”
Chegou a primeira composição de trem e Marieta bem próxima dos vagões, braços erguidos e olhar esgazeado, grita para os passageiros: “Me dá jornal!... me dá jornal!...”
Tão fora de si estava ela, entretanto, que nem reparava que os passageiros, condoídos atendiam ao apelo, atirando-lhe em quantidade, os jornais já lidos.
E assim faz com as diversas composições de trem que subiam a serra  - “Me dá jornal, por amor de Deus!...” pedia ela incessantemente.
Os garotos da localidade atraídos pela cena apanhavam os jornais e os oferecia a Marieta que, entretanto, nem olhava para eles.
Desaparecido o último vagão, a louca, recolhe-se à casa. E dali em diante, na sua loucura mansa, a coitada mal ouvia os apitos das locomotivas e corria para junto do leito da estrada e iniciava seu peditório. Sempre indiferente aos jornais atirados!
Mas os garotos acostumaram-se a apanhar esses jornais que iam vender aos pequenos comerciantes da povoação.
De Jorge nunca mais houve noticia. E Marieta pediu jornal durante alguns anos morrendo, tristemente, em sua encantada casinha da serra.
O apelo de Marieta, porém perpetuar-se-ia na voz das crianças que até hoje, à passagem dos trens entoam o coro plangente tão nosso conhecido: “Jornal... nal!... nal!... nal!... nal!...”


segunda-feira, 22 de abril de 2013

O FOTÓGRAFO E O PRESIDENTE: UM CURIOSA HISTÓRIA DO CINEMA PETRÓPOLIS

A história de Petrópolis é marcada não apenas por grandes acontecimentos políticos e sociais, mas também por episódios pitorescos protagonizados por personagens que, de maneira inesperada, acabaram se aproximando das figuras mais importantes da vida nacional. Entre essas histórias encontra-se a curiosa relação entre o fotógrafo petropolitano Rodolpho Haack e o presidente da República Getúlio Vargas, iniciada por uma fotografia que, à primeira vista, poderia parecer apenas um registro cotidiano.

O episódio teria ocorrido durante uma das temporadas de verão de Getúlio Vargas em Petrópolis, quando o presidente costumava circular pelas ruas do centro da cidade. Foi justamente em uma dessas ocasiões que Rodolpho Haack, proprietário de um estabelecimento de ótica e fotógrafo conhecido na cidade, realizou uma fotografia que acabaria provocando um pequeno incidente com a segurança presidencial e, posteriormente, estabelecendo uma relação de amizade entre o fotógrafo e o presidente.

Em uma tarde de verão, Getúlio Vargas caminhava pela então Avenida 15 de Novembro, atual Rua do Imperador, no centro de Petrópolis. Conhecido por seu modo característico de caminhar, frequentemente com as mãos cruzadas às costas, o presidente parou diante do antigo Cinema Capitólio, observando o movimento da rua e conversando descontraidamente com algumas das pessoas que circulavam pelo local.

Nas proximidades encontrava-se o estabelecimento de Rodolpho Haack, fotógrafo e proprietário de uma casa de ótica situada na mesma rua. Ao perceber a presença do presidente diante do cinema, Haack não perdeu a oportunidade de registrar aquela cena.

Tomou sua máquina fotográfica, posicionou-se nas proximidades do rio Quitandinha, em frente ao cinema, enquadrou Getúlio Vargas e fez o registro.

Para Haack, tratava-se de uma fotografia espontânea, captando o presidente em um momento descontraído de sua passagem por Petrópolis. Entretanto, o destino daquele retrato seria bem menos trivial.

Depois de revelar a fotografia, Rodolpho Haack decidiu fazer uma ampliação e colocá-la em exposição na vitrine de sua loja, como era costume entre os estabelecimentos fotográficos da época.

O resultado foi imediato: uma verdadeira aglomeração formou-se diante da vitrine da "A Óptica".

Mas o que teria provocado tamanha curiosidade?

A explicação estava no próprio enquadramento da fotografia. Naquele período, o Cinema Capitólio anunciava em sua fachada o filme “Ali Babá e os 40 Ladrões”. O cartaz ou letreiro da película aparecia ao fundo da fotografia, compondo uma combinação involuntariamente cômica: a imagem do presidente Getúlio Vargas surgia diante da divulgação de um filme cujo título remetia a “Ali Babá”.

A fotografia rapidamente chamou a atenção do público, justamente pela associação curiosa entre o presidente e o título do filme. O que para Haack era simplesmente um flagrante fotográfico transformou-se, aos olhos dos observadores, em uma imagem carregada de humor.

A reação da segurança presidencial

A repercussão da fotografia, entretanto, não teria ficado restrita à população que se aglomerava diante da vitrine.

A notícia chegou aos ouvidos dos integrantes da segurança presidencial. Preocupados com o significado que poderia estar sendo atribuído à fotografia, os agentes foram imediatamente verificar o ocorrido.

Segundo a tradição oral associada ao episódio, Rodolpho Haack foi detido sem que tivesse oportunidade de explicar adequadamente a situação. O fotógrafo teria sido conduzido para a cadeia de Niterói, permanecendo incomunicável.

O que começara como uma fotografia espontânea havia adquirido, portanto, proporções inesperadas.

Haack provavelmente jamais imaginaria que uma simples ampliação colocada na vitrine de sua loja pudesse resultar em sua prisão.

A situação, porém, teria uma reviravolta igualmente inesperada.

Ao tomar conhecimento da prisão de Haack e das circunstâncias que haviam provocado o incidente, Getúlio Vargas teria determinado imediatamente a libertação do fotógrafo.

Mais do que isso: o presidente quis conhecer pessoalmente o autor da fotografia.

O encontro entre ambos teria transformado completamente o episódio. O que inicialmente poderia ter criado uma situação de constrangimento acabou se convertendo no início de uma relação de proximidade e confiança.

A partir daquele momento, segundo a memória preservada sobre o episódio, Rodolpho Haack passou a manter uma relação amistosa com o presidente, que o teria tratado com grande consideração. O fotógrafo, conhecido carinhosamente pelos amigos como “o velho Haack”, tornou-se presença habitual nas temporadas de Vargas em Petrópolis.

O fotógrafo de Getúlio em Petrópolis

Durante as permanências de Getúlio Vargas na cidade, Rodolpho Haack teria passado a acompanhá-lo em diversas ocasiões, registrando fotograficamente momentos de sua vida cotidiana.

Getúlio era frequentemente visto caminhando pelas ruas do centro de Petrópolis, e não seria raro encontrar Haack ao seu lado, máquina fotográfica em mãos.

A relação entre os dois teria ultrapassado, assim, a simples condição de fotógrafo e fotografado. Haack tornou-se uma espécie de acompanhante habitual do presidente durante suas caminhadas e atividades na cidade.

A fotografia, que inicialmente quase lhe custara a liberdade, acabaria proporcionando justamente o contrário: uma aproximação com uma das figuras políticas mais importantes da história brasileira.

Segundo a tradição familiar e a memória transmitida sobre o relacionamento entre os dois, Getúlio chegou inclusive a conversar com Haack sobre assuntos relacionados ao país, ouvindo suas opiniões e conselhos durante as caminhadas pelas ruas de Petrópolis.

É importante, contudo, compreender esse aspecto dentro do contexto da memória histórica local. A eventual influência efetiva de Haack sobre decisões presidenciais não deve ser tomada automaticamente como fato documental sem a localização de fontes primárias que a comprovem. O episódio, entretanto, permanece significativo como testemunho da proximidade que o fotógrafo teria alcançado junto ao presidente durante suas temporadas em Petrópolis.

A história de Rodolpho Haack e Getúlio Vargas possui todos os elementos de uma boa narrativa histórica: um presidente caminhando tranquilamente pelas ruas de Petrópolis, um fotógrafo atento, uma fotografia espontânea, um título de filme colocado involuntariamente ao fundo, uma interpretação bem-humorada do público, a intervenção da segurança presidencial e, finalmente, uma amizade que teria nascido de toda essa sucessão de acontecimentos.

O episódio também revela um aspecto interessante da vida cotidiana de Petrópolis durante o período em que a cidade recebia frequentemente autoridades políticas e personalidades de destaque. A presença presidencial fazia parte da paisagem urbana, mas não impedia que acontecimentos aparentemente banais adquirissem grande repercussão.

No caso de Rodolpho Haack, uma fotografia tirada diante do Cinema Capitólio transformou-se em uma passagem singular de sua trajetória profissional e pessoal.

A imagem que provocou o incidente também teria sido responsável por aproximá-lo de Getúlio Vargas. De fotógrafo que registrara casualmente o presidente, Haack teria se transformado em seu fotógrafo de confiança durante as temporadas petropolitanas.

Assim, entre as muitas histórias que compõem a memória de Petrópolis, a de Rodolpho Haack e Getúlio Vargas destaca-se por seu caráter pitoresco e humano. É uma história em que fotografia, política, cinema e cotidiano se encontram em uma única cena — e na qual um simples letreiro de cinema acabou desempenhando um papel inesperado na aproximação entre um fotógrafo petropolitano e o presidente da República.

Mais do que uma fotografia, aquele registro tornou-se parte da memória afetiva de uma época em que Getúlio Vargas caminhava pelas ruas de Petrópolis e em que Rodolpho Haack, com sua máquina fotográfica, estava sempre pronto para eternizar os acontecimentos.

 

domingo, 21 de abril de 2013

LENDA PETROPOLITANA: O ESPECTRO DO IMPERADOR


A bela manhã de maio convidava o petropolitano ao ar livre.
As lindas e silenciosas avenidas do Quarteirão imperial estavam inundadas pelo sol morno e gostoso que abrandava a friúra do ventinho de inversa que já se aproximava.
Os pardais cantando, cruzavam as ruas alegremente, enquanto que os sabiás, à cata de sementes preferida, chilreavam com energia nas magnólias.
De tão belo o dia, dizia-se pairar no ar, tocada em surdia, estranha e suave melodia. Um hino a natureza, provavelmente!...
Chegamos, porém à velha Bacia, ponto de reunião de crianças e velhos nas manhã de inverno.
A meninada brinca, animadamente sob os olhares atentos das babás, enquanto que os mais velhos, sentados nos bancos mais batidos pelo sol, leem os jornais, conversam e tiram, às vezes, até seus cochilos...
Como sempre, lá estavam naquela manhã, sentados no banco predileto, o tabelião aposentado e historiador João Duarte da Silveira e postalista, também aposentado e cronista Antero Palma.
Os jornais foram lidos do principio ao fim; os assuntos do dia foram analisados e discutidos com toda a minúcia; e o passado foi recordado com a costumeira nostalgia...
 A manhã, porém, já se ia alto. As crianças se haviam retirado, o sol abrasava e a hora do almoço estava próxima.
Um diacho de preguiça tomava conta dos dois amigos que, alheios a tudo permaneciam quietos no banco.
Mas eis que, em dado momento, Antero Palma, olhando para a estátua do Imperador, vê coisa muito estranha. Pedro II baixava a mão esquerda que, havia tanto tempo amparava a face; descruzava as pernas e, levantando-se da cadeira, pulava agilmente para o chão. Voltando-se para o Palácio Imperial, para ele logo se dirige através da ponte da Bacia.
Vencida a emoção, Antero Palma, por sua vez levanta-se do banco e segue o velhos Imperador. Nem se lembra do companheiro Silveira.
Com o passo firme e respondendo cortesmente aos cumprimentos dos transeuntes, Pedro II atravessa a praça, toma a Avenida 7 de Setembro e chega, rapidamente, ao grande portão do Parque Imperial.
Dois fidalgos, muitos conhecidos, aguardavam o imperador visitante: os condes de Aljezur e de Paranaguá. Feitos os cumprimentos seguem os três rumo ao palácio.
Na rampa de acesso à porta principal, formam alas os funcionários do Museu Imperial, tendo à frente, todo sorridente, o diretor Alcindo Sodré.
Sua Majestade, muito afável, a todos cumprimenta e atinge o saguão, cuja a entrada é convidado a calçar as pantufas.
Pedro II exita. Chinelos para ele, o Imperador???
Posto a par, porém, da exigência regulamentar da casa, obedecida até pelos presidentes da República, o velho monarca sorri com humildade calça as tais pantufas.
Atento, minucioso, Sua Majestade percorre, peça por peça, todo o palácio, pedindo informações sobre tudo de estranho que encontrava. Amiúde, interrompia a resposta de seus cicerones às perguntas que formulava, com sua frase habitual: - Já sei, já sei!
Foi na sala do trono, no entanto, o local em que mais se demorou. Ali, ante o trono dourado, não pôde conter a emoção e as lágrimas correram a face.
Quantas e quantas vezes, outrora, trajando as vestes imperiais, tendo à mão o cetro de ouro, e à cabeça a coroa imperial cintilante de pedras preciosas, se sentara ali naquela mesma cadeira para receber as reverencias de seus súditos!... e como eram, então, numerosas  e exuberantes as demonstrações de amizade, respeito e fidelidade que recebia!
Via-se, depois, já destronado, semi abandonado, no modesto hotel de Paris, enquanto que muitos daqueles que mais constantes nas mesuras e nos salamaleques aderiam, sem cerimônia, à república, e passavam a bajular, com igual veemência, aos novos senhores.
De pé, ereto no meio do salão, e voltado para o trono, D. Pedro II, naquele momento revelava nos seus belos olhos azuis a amargura que um dia, devia ter lhe invadido a alma.
E, à lembrança de muitos presentes, vinham, então, as palavras sentidas do monarca no exílio:

“Mas a dor que excrucia que maltrata
A dor cruel que o animo deplora,
Que fere o coração e pronto mata,
É ver na mão cuspir à extrema hora
A mesma boca aduladora e ingrata.
Que tantos beijos nela deu outrora.”

Repentinamente, sem que ninguém esperasse, o Imperador se retirou da sala, saiu do Palácio e desapareceu em meio ao arvoredo do jardim.
 Antero Palma, no entanto, levantara-se do banco, estremunhado, saindo do pesadelo. Dando com a estátua do imperador bem à frente, acalmou-se e tratou logo de despertar o amigo que estava  tirando um cochilo ao seu lado no banco. Era muito mais de meio-dia e as famílias já deviam estrar preocupadas...
 E lá se foram dos dois rumos as suas casas, pondo fim a mais uma reunião matinal naquela bacia de tão gratas recordações, para ambos.
Mas não foi só o saudoso Antero Palma, que se referiu ao aparecimento do espectro do Imperador em nossa cidade.
 Já em 1904, outro cronista petropolitano, Gregório de Almeida, nos contava a seguinte história:
“Correu o boato, não sabemos com que fundamento de que o vulto do senhor D. Pedro II aparece, de tempos em tempos, nas alamedas do parque imperial. Há mesmo quem afiance ter visto o espectro calmo, grave, meditabundo, caminhas lentamente, sem que uma só folhinha seca, esmagada pelos pés do fantasma, fizesse o mínimo ruído. Vagarosamente, todo de branco, com a cabeça pendida para o peito, como que em profunda meditação, caminhava; Seus cabelos brancos crescidos caem-lhe pelos ombros; sua barba, também longa e branca, orna-lhe  o peito; na figura cheia de nobreza, tem ainda alguma coisa de majestoso da sua raça e reis e imperadores; da raça arqueducal de sua mãe, da raça de Maria Antonieta.”


LENDA PETROPOLITANA: A FIGUEIRA DE TIRADENTES

Entre as tradições históricas que compõem o imaginário de Petrópolis encontra-se a chamada Lenda da Figueira de Tiradentes, associada ao antigo núcleo rural de Corrêas e à Fazenda do Padre Corrêa. A narrativa, transmitida durante gerações, afirma que o alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, teria descansado ou permanecido amarrado ao tronco de uma antiga árvore existente diante da sede da fazenda. Embora a documentação histórica não permita confirmar esse episódio, a tradição possui interesse particular por estabelecer uma relação entre a história da Conjuração Mineira, os antigos caminhos que ligavam Minas Gerais ao Rio de Janeiro e o território que posteriormente constituiria Petrópolis.

A origem da lenda pode estar relacionada à própria circulação de Tiradentes pelos caminhos que conduziam ao Rio de Janeiro. Em 1789, antes de sua prisão, o alferes deslocava-se entre Minas Gerais e a capital colonial, utilizando as antigas vias de comunicação que atravessavam a região do vale do Paraíba. Os Autos da Devassa da Conjuração Mineira registram sua passagem por localidades como Varginha e Cebolas, esta última situada na região de Paraíba do Sul. A sentença posteriormente proferida contra Tiradentes determinou que partes de seu corpo fossem expostas precisamente em locais relacionados à sua atuação e à divulgação de suas ideias, entre eles Varginha e Cebolas.

A partir desse dado documental, compreende-se melhor a formação da tradição existente em Corrêas. O antigo caminho que ligava Minas Gerais ao Rio de Janeiro passava por áreas que, posteriormente, integrariam o município de Petrópolis. A Fazenda do Padre Corrêa encontrava-se justamente em uma dessas rotas de circulação. Assim, embora não exista prova documental de que Tiradentes tenha repousado sob a árvore, é historicamente plausível que tenha transitado pelas proximidades da região quando ainda se encontrava em liberdade.

É necessário, entretanto, estabelecer uma distinção fundamental entre a tradição e a documentação histórica. A versão segundo a qual Tiradentes teria passado por Corrêas preso, conduzido por soldados de Vila Rica em direção ao Rio de Janeiro, não corresponde aos acontecimentos registrados pela documentação. Tiradentes foi preso no Rio de Janeiro em 10 de maio de 1789, quando se encontrava escondido em uma residência da antiga Rua dos Latoeiros, atual Rua Gonçalves Dias. Após a prisão, permaneceu encarcerado durante quase três anos, sendo executado somente em 21 de abril de 1792.

Portanto, não poderia ter passado pela Fazenda do Padre Corrêa como prisioneiro em uma viagem entre Vila Rica e o Rio de Janeiro. A própria cronologia da Conjuração Mineira desmonta essa parte da narrativa. Isso, contudo, não elimina a possibilidade de que a origem remota da lenda esteja relacionada a uma passagem anterior do alferes pela região ou, ainda, à circulação posterior dos demais envolvidos na Conjuração.

A história de Corrêas está intimamente ligada às antigas propriedades rurais estabelecidas no vale do Piabanha. A área teve origem em terras concedidas em sesmaria e, ao longo do século XVIII, passou por diferentes proprietários, ficando posteriormente conhecida como Fazenda de Manoel Corrêa e, depois, Fazenda do Padre Corrêa. A propriedade tornou-se importante ponto de parada para viajantes que percorriam a estrada entre o Rio de Janeiro e Minas Gerais.

o início do século XIX, a fazenda já era conhecida pelos viajantes estrangeiros. John Mawe, que percorreu a região em 1809, registrou a existência de uma casa e de uma capela, além da intensa atividade desenvolvida pelo padre Corrêa. O estabelecimento possuía trabalhadores escravizados e destacava-se, entre outras atividades, pela fabricação de ferraduras e pelo cultivo agrícola.

A importância da fazenda como ponto de passagem é confirmada por diferentes relatos de viajantes. A documentação reunida por pesquisadores da história territorial de Petrópolis demonstra que, entre 1809 e as décadas seguintes, diversos viajantes registraram a propriedade e sua produção, revelando a importância daquele estabelecimento no antigo caminho entre a Corte e Minas Gerais.

Foi nesse cenário que se tornou célebre uma enorme árvore existente diante da casa-grande. Frequentemente denominada figueira, embora também apareça descrita como gameleira, a árvore impressionava por suas dimensões. A tradição afirmava que sua sombra poderia abrigar centenas de pessoas e que um de seus grandes galhos alcançava as proximidades da capela da fazenda.

A grandiosidade da árvore contribuiu certamente para sua transformação em elemento da memória local. Árvores de grandes proporções, sobretudo aquelas associadas a casas antigas, igrejas, caminhos e acontecimentos extraordinários, frequentemente assumem papel simbólico na memória das comunidades. No caso de Corrêas, a associação com Tiradentes acrescentou à árvore uma dimensão patriótica e lendária.

Um dos registros mais significativos da lenda encontra-se na crônica “As árvores têm almas”, publicada por Humberto de Campos em 26 de abril de 1930, na revista O Cruzeiro. O escritor apresentou a velha árvore de Corrêas como aquela cuja sombra, segundo a tradição oral, teria acolhido Tiradentes.

Humberto de Campos, contudo, não deixou de perceber a contradição histórica. Sua narrativa reproduzia a tradição segundo a qual o alferes teria chegado à região como prisioneiro, mas, em seguida, reconhecia que a História contestava essa possibilidade. A própria estrutura do texto demonstra como a memória popular e a documentação histórica podiam conviver, ainda que em permanente tensão.

Outro relato, citado em estudos e memórias locais, acrescentou um elemento ainda mais dramático à tradição: a afirmação de que soldados teriam arrancado um dos braços de Tiradentes junto à árvore. A explicação provável para essa versão encontra-se no episódio verdadeiro da exposição de partes do corpo do condenado em Cebolas. A sentença determinava expressamente que partes do corpo de Tiradentes fossem expostas em locais relacionados à sua atuação. Com o passar do tempo, a memória desse acontecimento pode ter sido deslocada geograficamente e incorporada à narrativa da velha árvore de Corrêas.

Dessa maneira, a lenda não deve ser simplesmente classificada como uma “mentira histórica”. Ela pode ser compreendida como resultado de um processo de transformação da memória, no qual diferentes acontecimentos reais foram reunidos e reinterpretados pela tradição oral.

A força da tradição ultrapassou a história da passagem do alferes. Segundo antigos relatos locais, no início do século XX ainda havia moradores que acreditavam que o espírito de Tiradentes aparecia nas proximidades da árvore durante a noite.

A imagem era particularmente dramática: o mártir surgiria vestido com a camisola de condenado, trazendo a corda ao pescoço e arrastando-a pelo chão, até finalmente refugiar-se sob a copa da velha figueira. O relato revela como a memória de Tiradentes havia adquirido características próprias do imaginário popular. O personagem histórico transformava-se em figura sobrenatural, ligada simultaneamente ao sofrimento, à justiça e à resistência.

A lenda também teria produzido certo temor entre os moradores de Corrêas. Evitava-se passar pela árvore durante a noite, sobretudo em horários associados à aparição do suposto espírito. Nesse processo, a árvore deixou de ser apenas um elemento da paisagem e passou a constituir um verdadeiro lugar de memória.

Outra tradição associada à velha árvore apresenta caráter menos trágico e mais pitoresco. Segundo a narrativa local, um de seus enormes galhos teria alcançado as proximidades da capela da fazenda. Certo domingo, quando os fiéis deixavam o templo após a missa, teriam se deparado com um macaco pendurado no galho, aparentemente observando o interior da igreja.

Assustado com a movimentação dos devotos, o animal teria fugido pelos galhos em direção à mata. O episódio, provavelmente um simples acontecimento natural, acabou incorporado ao folclore local. Surgiu então a divertida tradição de que os macacos de Corrêas gostavam de assistir às missas da capela.

A história demonstra como a memória popular se constrói também por meio de acontecimentos cotidianos. A mesma árvore que abrigava uma narrativa trágica relacionada a Tiradentes servia, simultaneamente, de cenário para histórias humorísticas e fantásticas.

A antiga árvore sobreviveu durante gerações como testemunho da paisagem histórica de Corrêas. Entretanto, em 1954, por determinação da Prefeitura Municipal de Petrópolis, a lendária figueira foi derrubada. Com sua queda, desapareceu um dos mais conhecidos elementos materiais associados às tradições locais.

A árvore, contudo, continuou existindo na memória. Fotografias, pinturas, relatos de viajantes, crônicas e tradições orais permitiram que sua imagem sobrevivesse ao desaparecimento físico. O próprio acervo relacionado à Casa do Padre Corrêa conserva referências iconográficas à árvore tradicionalmente associada a Tiradentes.

A chamada Figueira de Tiradentes permanece, portanto, como exemplo expressivo da relação entre história e memória. Não é possível afirmar documentalmente que Joaquim José da Silva Xavier tenha sido amarrado ao seu tronco. Tampouco há fundamento histórico para a narrativa de que teria chegado a Corrêas como prisioneiro vindo de Vila Rica. A documentação demonstra que sua prisão ocorreu no Rio de Janeiro, em maio de 1789.

Entretanto, é igualmente precipitado ignorar a importância histórica da tradição. Corrêas encontrava-se em uma antiga rota de ligação entre Minas Gerais e o Rio de Janeiro; Tiradentes efetivamente percorreu os caminhos da região em período anterior à sua prisão; Cebolas, local associado à exposição de parte de seus restos mortais, integrava essa mesma rede de circulação; e a Fazenda do Padre Corrêa era reconhecidamente um importante ponto de parada dos viajantes.

A lenda nasceu, assim, do encontro entre geografia, memória, tradição oral e acontecimentos históricos. O tempo acrescentou detalhes, deslocou acontecimentos e transformou uma antiga árvore em testemunha imaginária da trajetória de um dos personagens mais importantes da memória nacional.

Hoje, desaparecida a árvore que durante décadas dominou a paisagem da antiga Fazenda do Padre Corrêa, resta a narrativa. E talvez seja justamente essa a maior importância da lenda: lembrar que a história de um lugar não é formada apenas por documentos oficiais, mas também pelas histórias que seus habitantes preservam, reinterpretam e transmitem.

A Figueira de Tiradentes não pode ser apresentada pela historiografia como prova da passagem do alferes preso por Corrêas. Deve, antes, ser compreendida como um lugar de memória, no qual diferentes acontecimentos históricos foram reunidos pela tradição popular. Entre a realidade documentada e a imaginação coletiva nasceu uma das mais curiosas lendas da história de Petrópolis.

 

Referências bibliográficas

CAMPOS, Humberto de. As árvores têm almas. O Cruzeiro, Rio de Janeiro, 26 abr. 1930.

CUNHA MATTOS, Raimundo José da. Itinerário do Rio de Janeiro ao Pará e Maranhão pelas províncias de Minas Gerais e Goiás. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1836.

FROÉS, Carlos Oliveira. Petrópolis: a saga de um caminho. Petrópolis: Instituto Histórico de Petrópolis, 2005.

MAXWELL, Kenneth. Conjuração mineira: novos aspectos. Estudos Avançados, São Paulo, v. 3, n. 6, 1989.

AMBROZIO, Julio Cesar Gabrich. O presente e o passado no processo urbano da cidade de Petrópolis: uma história territorial. 2008. Tese (Doutorado em Geografia Humana) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2008.

LABOMBE, Lourenço. A mais velha casa de Corrêas. Revista do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Rio de Janeiro, n. 2, 1938, p. 93-99.

BRASIL. Autos de Devassa da Inconfidência Mineira. Brasília: Câmara dos Deputados; Belo Horizonte: Imprensa Oficial de Minas Gerais.

MUSEU IMPERIAL. Casa do Padre Corrêa: documentação iconográfica e referências históricas. Petrópolis: Instituto Brasileiro de Museus.

Fontes digitais consultadas

Os registros sobre a Casa do Padre Corrêa, sua documentação iconográfica e a bibliografia relacionada à propriedade podem ser consultados no catálogo especializado sobre patrimônio histórico.

A narrativa tradicional da Figueira de Tiradentes e sua permanência na memória local também foi registrada em publicações de história de Petrópolis.

A documentação sobre a prisão de Tiradentes confirma que ela ocorreu no Rio de Janeiro, em 10 de maio de 1789, elemento fundamental para a análise crítica da lenda.