Quando se fala na origem de Petrópolis, quase sempre a narrativa começa em 1843, com o decreto imperial que criou a povoação planejada por Júlio Frederico Koeler. Entretanto, a história desse território é muito mais antiga. Séculos antes da Cidade Imperial existir, as montanhas do Córrego Seco já despertavam a curiosidade de exploradores, indígenas e cronistas. Há, inclusive, uma hipótese historiográfica consistente de que o atual território petrópolis tenha sido atravessado por portugueses em 1531, apenas trinta e um anos após o Descobrimento do Brasil.
Embora não exista prova definitiva, a
combinação entre documentos quinhentistas, geografia e estudos de renomados
historiadores permite reconstruir um dos episódios mais fascinantes da
pré-história de Petrópolis.
A Serra dos Órgãos: uma fortaleza natural
Durante os séculos XVI e XVII, a Serra dos
Órgãos representava uma das maiores barreiras naturais da América Portuguesa.
Com altitudes superiores a dois mil metros, vales profundos, rios caudalosos e
florestas densas, ela separava o litoral da vasta região interiorana.
Os primeiros colonizadores preferiam
contornar esse obstáculo. As viagens entre o Rio de Janeiro e o interior eram
feitas por mar até Paraty e, dali, através da Serra da Bocaina, alcançando o
Vale do Paraíba. Era um percurso longo, mas considerado mais seguro do que
enfrentar diretamente os paredões graníticos da Serra dos Órgãos.
O jesuíta Simão de Vasconcellos, em 1662,
descreveu essas montanhas com admiração quase religiosa. Segundo ele, os picos
erguiam-se como os tubos de um gigantesco órgão musical, formando muralhas que
“excedem as nuvens” e onde os trovões pareciam anunciar a presença de forças
sobrenaturais. Para muitos povos indígenas, aqueles fenômenos naturais eram a
defesa da própria serra contra os invasores.
A misteriosa entrada de Martim Afonso
Em abril de 1531, a armada de Martim
Afonso de Sousa ancorou na Baía de Guanabara durante sua expedição de
reconhecimento do litoral brasileiro. Foi nesse momento que ocorreu um episódio
registrado por Pero Lopes de Sousa, irmão do comandante.
O diário informa que quatro portugueses
foram enviados “pela terra dentro”. Permaneceram ausentes durante dois meses,
percorrendo 115 léguas. O texto acrescenta três informações preciosas:
* atravessaram 65 léguas de montanhas
muito grandes;
* depois caminharam 50 léguas por grandes
campos;
* encontraram um poderoso chefe indígena,
que lhes ofereceu grande quantidade de cristal e falou sobre regiões abundantes
em ouro e prata.
Esse breve relato tornou-se uma das
maiores questões da geografia histórica colonial: por onde passaram esses
homens?
A interpretação de Orville Derby e Pandiá Calógeras
No final do século XIX, o geólogo Orville
Derby foi o primeiro a sugerir que essa expedição talvez tivesse alcançado o
território das futuras Minas Gerais.
Décadas depois, João Pandiá Calógeras
aprofundou a hipótese em As Minas do Brasil e sua Legislação. Seu raciocínio
era essencialmente geográfico.
Segundo Calógeras, quem parte do fundo da
Baía de Guanabara encontra dois corredores naturais de penetração: os vales dos
rios Pilar e Estrela, em Magé. Ambos conduzem diretamente às escarpas da Serra
do Mar, exatamente na vertente onde hoje se encontra Petrópolis.
Vencida a subida, o caminho mais lógico
seguiria pelo vale do Piabanha, depois pelo Paraíba do Sul e, finalmente, pelos
rios Paraibuna ou Preto, alcançando os campos da Mantiqueira. A sequência
coincide de maneira impressionante com a descrição do diário: primeiro
montanhas, depois campos.
Calógeras observou ainda que 115 léguas
dificilmente representariam apenas a ida. Se fossem ida e volta, os
exploradores teriam caminhado mais de 230 léguas em apenas sessenta dias,
velocidade praticamente impossível para homens abrindo caminho em território
desconhecido. Assim, concluiu que o número provavelmente correspondia ao
percurso total da expedição, reforçando a ideia de uma penetração de cerca de
sessenta léguas para o interior.
O papel do Córrego Seco
Se essa reconstrução estiver correta, o
Córrego Seco teria sido o primeiro grande ponto de apoio da travessia.
Muito antes da Fazenda Imperial existir, o
vale oferecia características ideais para uma parada: abundância de água, rios
cristalinos, áreas relativamente abertas e acesso aos antigos caminhos
indígenas que subiam a serra.
Não por acaso, mais de cento e setenta
anos depois, Bernardo Soares de Proença escolheria praticamente o mesmo
corredor para abrir o Caminho Novo em 1702. A engenharia colonial apenas
oficializou uma rota que provavelmente já era utilizada pelos povos indígenas
havia séculos.
O enigma do cristal
Um dos elementos mais curiosos do relato é
o presente oferecido aos portugueses: “muito cristal”.
Tradicionalmente, os historiadores
associaram esse cristal aos veios de quartzo existentes entre os rios Grande e
das Mortes, em Minas Gerais. Contudo, Alcindo Sodré chamou atenção para outra
possibilidade extremamente interessante.
Na região da Mosela, em Petrópolis, existe
desde tempos antigos um afloramento conhecido como Pedra Branca, famoso pela
extraordinária qualidade do cristal de rocha. Os grandes blocos de quartzo
transparente sempre impressionaram viajantes e moradores.
Assim, nada impede que parte daquele
cristal tenha sido obtida ainda na Serra dos Órgãos, antes mesmo de os
exploradores alcançarem o planalto mineiro. O diário de Pero Lopes fala apenas
em cristal; não menciona ouro, nem pedras preciosas. A simplicidade da
descrição favorece essa interpretação.
Os guias indígenas da serra
Nenhuma expedição europeia conseguiria
vencer a Serra dos Órgãos sem auxílio local.
As trilhas eram estreitas, frequentemente
ocultas pela Mata Atlântica, e a travessia exigia conhecimento das passagens,
dos rios e dos locais de descanso. É praticamente certo que os portugueses
tenham sido conduzidos por indígenas.
Joaquim Norberto, em suas Memórias
Históricas sobre as Aldeias de Índios da Província do Rio de Janeiro,
identifica nessa cordilheira a presença dos índios Coroados, grupo que também
ocupava Valença e Paty do Alferes. Esses povos dominavam os caminhos naturais
entre o litoral e o interior e provavelmente foram os verdadeiros responsáveis
pelo sucesso da jornada de 1531.
Mais do que simples guias, eles eram
conhecedores da geologia, da fauna, da flora e das rotas comerciais indígenas
que ligavam diferentes nações muito antes da chegada dos europeus.
Entre documento e tradição histórica
É fundamental distinguir o que é fato do
que é hipótese.
Fato histórico: o diário de Pero Lopes
comprova que quatro homens percorreram 115 léguas por grandes serras e campos,
permanecendo dois meses no interior.
Hipótese historiográfica: que essas
montanhas eram a Serra dos Órgãos e que o percurso atravessou o Córrego Seco,
atual Petrópolis.
Essa interpretação foi defendida por
Orville Derby, desenvolvida por Pandiá Calógeras e posteriormente valorizada
por Alcindo Sodré nos estudos do Centenário de Petrópolis. Embora não
definitiva, ela permanece uma das explicações mais coerentes para o primeiro
contato europeu com essa região.
Se verdadeira, Petrópolis possui uma cronologia muito mais antiga do que sua fundação imperial: suas montanhas teriam testemunhado a presença portuguesa 312 anos antes da criação oficial da Cidade Imperial, fazendo do Córrego Seco uma das mais antigas portas de entrada para o sertão brasileiro.

Mais um excelente trabalho sobre a História do Brasil, que muitos querem esconder.
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