sábado, 6 de abril de 2013

TERÁ O CÓRREGO SIDO VISITADO PELOS PORTUGUESES NO LONGÍNQUO ANO DE 1531?

Quando se fala na origem de Petrópolis, quase sempre a narrativa começa em 1843, com o decreto imperial que criou a povoação planejada por Júlio Frederico Koeler. Entretanto, a história desse território é muito mais antiga. Séculos antes da Cidade Imperial existir, as montanhas do Córrego Seco já despertavam a curiosidade de exploradores, indígenas e cronistas. Há, inclusive, uma hipótese historiográfica consistente de que o atual território petrópolis tenha sido atravessado por portugueses em 1531, apenas trinta e um anos após o Descobrimento do Brasil.

Embora não exista prova definitiva, a combinação entre documentos quinhentistas, geografia e estudos de renomados historiadores permite reconstruir um dos episódios mais fascinantes da pré-história de Petrópolis.

 A Serra dos Órgãos: uma fortaleza natural

Durante os séculos XVI e XVII, a Serra dos Órgãos representava uma das maiores barreiras naturais da América Portuguesa. Com altitudes superiores a dois mil metros, vales profundos, rios caudalosos e florestas densas, ela separava o litoral da vasta região interiorana.

Os primeiros colonizadores preferiam contornar esse obstáculo. As viagens entre o Rio de Janeiro e o interior eram feitas por mar até Paraty e, dali, através da Serra da Bocaina, alcançando o Vale do Paraíba. Era um percurso longo, mas considerado mais seguro do que enfrentar diretamente os paredões graníticos da Serra dos Órgãos.

O jesuíta Simão de Vasconcellos, em 1662, descreveu essas montanhas com admiração quase religiosa. Segundo ele, os picos erguiam-se como os tubos de um gigantesco órgão musical, formando muralhas que “excedem as nuvens” e onde os trovões pareciam anunciar a presença de forças sobrenaturais. Para muitos povos indígenas, aqueles fenômenos naturais eram a defesa da própria serra contra os invasores.

 A misteriosa entrada de Martim Afonso

Em abril de 1531, a armada de Martim Afonso de Sousa ancorou na Baía de Guanabara durante sua expedição de reconhecimento do litoral brasileiro. Foi nesse momento que ocorreu um episódio registrado por Pero Lopes de Sousa, irmão do comandante.

O diário informa que quatro portugueses foram enviados “pela terra dentro”. Permaneceram ausentes durante dois meses, percorrendo 115 léguas. O texto acrescenta três informações preciosas:

* atravessaram 65 léguas de montanhas muito grandes;

* depois caminharam 50 léguas por grandes campos;

* encontraram um poderoso chefe indígena, que lhes ofereceu grande quantidade de cristal e falou sobre regiões abundantes em ouro e prata.

Esse breve relato tornou-se uma das maiores questões da geografia histórica colonial: por onde passaram esses homens?

 A interpretação de Orville Derby e Pandiá Calógeras

No final do século XIX, o geólogo Orville Derby foi o primeiro a sugerir que essa expedição talvez tivesse alcançado o território das futuras Minas Gerais.

Décadas depois, João Pandiá Calógeras aprofundou a hipótese em As Minas do Brasil e sua Legislação. Seu raciocínio era essencialmente geográfico.

Segundo Calógeras, quem parte do fundo da Baía de Guanabara encontra dois corredores naturais de penetração: os vales dos rios Pilar e Estrela, em Magé. Ambos conduzem diretamente às escarpas da Serra do Mar, exatamente na vertente onde hoje se encontra Petrópolis.

Vencida a subida, o caminho mais lógico seguiria pelo vale do Piabanha, depois pelo Paraíba do Sul e, finalmente, pelos rios Paraibuna ou Preto, alcançando os campos da Mantiqueira. A sequência coincide de maneira impressionante com a descrição do diário: primeiro montanhas, depois campos.

Calógeras observou ainda que 115 léguas dificilmente representariam apenas a ida. Se fossem ida e volta, os exploradores teriam caminhado mais de 230 léguas em apenas sessenta dias, velocidade praticamente impossível para homens abrindo caminho em território desconhecido. Assim, concluiu que o número provavelmente correspondia ao percurso total da expedição, reforçando a ideia de uma penetração de cerca de sessenta léguas para o interior.

O papel do Córrego Seco

Se essa reconstrução estiver correta, o Córrego Seco teria sido o primeiro grande ponto de apoio da travessia.

Muito antes da Fazenda Imperial existir, o vale oferecia características ideais para uma parada: abundância de água, rios cristalinos, áreas relativamente abertas e acesso aos antigos caminhos indígenas que subiam a serra.

Não por acaso, mais de cento e setenta anos depois, Bernardo Soares de Proença escolheria praticamente o mesmo corredor para abrir o Caminho Novo em 1702. A engenharia colonial apenas oficializou uma rota que provavelmente já era utilizada pelos povos indígenas havia séculos.

O enigma do cristal

Um dos elementos mais curiosos do relato é o presente oferecido aos portugueses: “muito cristal”.

Tradicionalmente, os historiadores associaram esse cristal aos veios de quartzo existentes entre os rios Grande e das Mortes, em Minas Gerais. Contudo, Alcindo Sodré chamou atenção para outra possibilidade extremamente interessante.

Na região da Mosela, em Petrópolis, existe desde tempos antigos um afloramento conhecido como Pedra Branca, famoso pela extraordinária qualidade do cristal de rocha. Os grandes blocos de quartzo transparente sempre impressionaram viajantes e moradores.

Assim, nada impede que parte daquele cristal tenha sido obtida ainda na Serra dos Órgãos, antes mesmo de os exploradores alcançarem o planalto mineiro. O diário de Pero Lopes fala apenas em cristal; não menciona ouro, nem pedras preciosas. A simplicidade da descrição favorece essa interpretação.

 Os guias indígenas da serra

Nenhuma expedição europeia conseguiria vencer a Serra dos Órgãos sem auxílio local.

As trilhas eram estreitas, frequentemente ocultas pela Mata Atlântica, e a travessia exigia conhecimento das passagens, dos rios e dos locais de descanso. É praticamente certo que os portugueses tenham sido conduzidos por indígenas.

Joaquim Norberto, em suas Memórias Históricas sobre as Aldeias de Índios da Província do Rio de Janeiro, identifica nessa cordilheira a presença dos índios Coroados, grupo que também ocupava Valença e Paty do Alferes. Esses povos dominavam os caminhos naturais entre o litoral e o interior e provavelmente foram os verdadeiros responsáveis pelo sucesso da jornada de 1531.

Mais do que simples guias, eles eram conhecedores da geologia, da fauna, da flora e das rotas comerciais indígenas que ligavam diferentes nações muito antes da chegada dos europeus.

Entre documento e tradição histórica

É fundamental distinguir o que é fato do que é hipótese.

Fato histórico: o diário de Pero Lopes comprova que quatro homens percorreram 115 léguas por grandes serras e campos, permanecendo dois meses no interior.

Hipótese historiográfica: que essas montanhas eram a Serra dos Órgãos e que o percurso atravessou o Córrego Seco, atual Petrópolis.

Essa interpretação foi defendida por Orville Derby, desenvolvida por Pandiá Calógeras e posteriormente valorizada por Alcindo Sodré nos estudos do Centenário de Petrópolis. Embora não definitiva, ela permanece uma das explicações mais coerentes para o primeiro contato europeu com essa região.

Se verdadeira, Petrópolis possui uma cronologia muito mais antiga do que sua fundação imperial: suas montanhas teriam testemunhado a presença portuguesa 312 anos antes da criação oficial da Cidade Imperial, fazendo do Córrego Seco uma das mais antigas portas de entrada para o sertão brasileiro.

Fonte:
Trabalhos da Comissão do Centenário – Vol II – Alcindo Sodré


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