O movimento
ecumênico cristão é um fenômeno muito posterior. Embora iniciativas de
aproximação entre denominações protestantes existissem desde o século XIX, a
participação oficial da Igreja Católica somente foi inaugurada durante o
pontificado de João XXIII, sobretudo com o Concílio Vaticano II (1962–1965).
Antes disso, a posição romana era de forte distinção doutrinária em relação às
igrejas oriundas da Reforma.
A cerimônia
documentada ocorreu em 29 de junho de 1846, um ano após a chegada dos primeiros
imigrantes alemães. Tratava-se de uma missa católica, celebrada ao ar livre na
então Praça Coblenz — atual jardins do Palácio de Cristal — e presidida pelo
Monsenhor Caetano Bedini, núncio apostólico.
Estavam presentes
D. Pedro II, D. Teresa Cristina, o mordomo da Casa Imperial Paulo Barbosa da
Silva e o major Júlio Frederico Koeler, além de numerosos colonos católicos e
também alguns protestantes que assistiram à celebração.
A presença de
pessoas de diferentes confissões, entretanto, não transforma uma missa em um
culto ecumênico. Assistir a uma cerimônia religiosa é muito diferente de
celebrar conjuntamente um ato litúrgico reconhecido por duas igrejas.
A principal prova
encontra-se nas próprias palavras do celebrante. Em seu sermão, Bedini exortou
os colonos a permanecerem fiéis ao catolicismo e declarou:
“Não os mandeis à escola protestante, se vos
importa conservá-los na vossa fé...”
Mais adiante,
condenou explicitamente os casamentos realizados pelo pastor protestante:
“Alguns dos católicos se têm unido
em matrimônio pelo ministério do pastor protestante... não podeis esperar
verdadeira e eficaz bênção de quem não seja padre católico.”
A ideia do “culto
ecumênico” provavelmente nasceu de uma leitura posterior, influenciada pelo
espírito de convivência religiosa que hoje caracteriza Petrópolis. A cidade
tornou-se, de fato, um espaço onde católicos, luteranos e outras comunidades
cristãs construíram uma história comum de respeito mútuo.
Entretanto, o
historiador deve distinguir memória de documentação. Valorizar a convivência
entre diferentes tradições religiosas não exige alterar o significado dos
acontecimentos do século XIX. Chamar a missa de 1846 de culto ecumênico é
aplicar um conceito da década de 1960 a uma realidade imperial marcada por
fronteiras confessionais muito bem definidas.
Assim, à luz das
fontes disponíveis, a conclusão é clara: Petrópolis não sediou um culto
ecumênico em 1845. O que houve, em 29 de junho de 1846, foi a primeira missa
solene da colônia, celebrada por Monsenhor Caetano Bedini, na presença da
Família Imperial e destinada principalmente a fortalecer a fé católica dos
colonos germânicos.
Bibliografia
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