quinta-feira, 13 de agosto de 2026

PETRÓPOLIS E A IDEIA DE “ABAIRRAMENTO”

PETRÓPOLIS E A IDEIA DE “ABAIRRAMENTO”: OS QUARTEIRÕES HISTÓRICOS COMO PATRIMÔNIO, MEMÓRIA E IDENTIDADE TERRITORIAL

1. Introdução

A história de Petrópolis não pode ser compreendida apenas a partir da construção do Palácio Imperial, da chegada dos colonos germânicos ou da criação formal da povoação em 1843. A formação da cidade está igualmente relacionada a um projeto de organização territorial que procurou estabelecer, desde seus primeiros anos, uma relação entre espaço, população, circulação, propriedade e identidade.

Nesse processo, destaca-se a atuação do major Júlio Frederico Koeler, engenheiro militar responsável pela elaboração do projeto urbanístico que orientou a ocupação da Imperial Colônia de Petrópolis. A planta elaborada em 1846 constitui um dos documentos fundamentais para a compreensão da gênese urbana da cidade. Nela, o território aparece organizado segundo uma lógica que ultrapassava a simples divisão administrativa: os espaços receberam denominações relacionadas às regiões de origem dos colonos, à Família Imperial, à administração provincial e a outros elementos associados à história da nova povoação.

Os chamados quarteirões de Petrópolis constituíram, assim, uma das características mais marcantes do projeto de Koeler. A denominação não era meramente cartográfica. Os quarteirões serviam como referências territoriais para a distribuição dos colonos, a localização dos prazos de terras e a organização da nova colônia.

É justamente essa característica que torna atual o debate sobre a chamada proposta de “abairramento” do município. Eventuais modificações administrativas são próprias da dinâmica de qualquer cidade e podem ser justificadas por razões relacionadas à gestão pública, planejamento urbano e prestação de serviços. Entretanto, quando uma nova divisão territorial substitui denominações históricas, existe o risco de que uma estrutura espacial construída ao longo de quase dois séculos seja gradualmente esquecida.

O problema, portanto, não reside necessariamente na criação de bairros ou na modernização da divisão administrativa, mas na possibilidade de que essa modernização seja acompanhada pelo apagamento da nomenclatura histórica dos quarteirões.

2. O projeto territorial de Koeler

A criação de Petrópolis esteve diretamente relacionada aos projetos de ocupação da Fazenda Imperial do Córrego Seco. Em 1843, o major Koeler recebeu importantes atribuições relacionadas à organização da futura povoação, em um momento no qual o governo imperial buscava estabelecer uma residência de verão para a Família Imperial e, simultaneamente, desenvolver uma colônia agrícola com imigrantes europeus.

O trabalho de Koeler foi muito além da abertura de ruas. Seu projeto estabeleceu uma lógica de organização espacial que considerava as características naturais do terreno, principalmente os rios e vales, além das necessidades de circulação e ocupação.

A Planta de Petrópolis de 1846 representa um dos mais importantes registros desse processo. Ela permite visualizar a cidade em sua fase inicial e demonstra que a ocupação não foi deixada ao acaso. O território foi estruturado em unidades denominadas quarteirões, dentro das quais eram distribuídos os chamados prazos de terras.

Essa organização é particularmente importante porque demonstra que a divisão territorial de Petrópolis possui uma origem histórica anterior à noção contemporânea de bairro.

O quarteirão, na experiência petropolitana, não era simplesmente uma subdivisão urbana convencional. Tratava-se de uma unidade territorial vinculada à própria implantação da colônia.

3. Os primeiros quarteirões

Na planta de 1846, a estrutura inicial contemplava as áreas centrais próximas ao Palácio Imperial e diversos quarteirões destinados à ocupação da colônia.

Entre as denominações registradas encontram-se:

Vila Imperial;

Vila Tereza;

Bingen;

Castelânea;

Ingelheim;

Mosela;

Nassau;

Palatinato Superior;

Palatinato Inferior;

Renânia Central;

Renânia Inferior;

Siméria;

Westfália.

A própria nomenclatura revela muito sobre o projeto de colonização.

Bingen, Ingelheim, Mosela, Nassau, Palatinato, Renânia, Siméria e Westfália remetem a regiões e referências geográficas do mundo germânico. A escolha desses nomes não foi casual. Em uma colônia formada em grande parte por imigrantes provenientes dos estados germânicos, a preservação de referências toponímicas de sua terra de origem ajudava a estabelecer vínculos simbólicos entre os novos habitantes e o território que passavam a ocupar.

A nomenclatura dos quarteirões pode, portanto, ser interpretada como parte de uma política de integração dos colonos ao novo espaço.

Ao invés de apagar completamente as referências anteriores dos imigrantes, o projeto territorial incorporou parte delas à própria geografia de Petrópolis.

Essa característica confere aos quarteirões um valor que ultrapassa o aspecto administrativo. Seus nomes constituem vestígios da própria história da imigração e da formação social da cidade.

4. A ampliação da cidade e a Planta de Reimarus

A expansão da ocupação de Petrópolis levou à elaboração de novas plantas e à incorporação de outras áreas ao sistema de quarteirões.

Em 1854, uma planta atribuída ao engenheiro Otto Reimarus ampliou a estrutura territorial, incorporando novas denominações, entre elas:

Brasileiro;

Darmstadt;

Francês;

Inglês;

Mineiro;

Presidência;

Princesa Imperial;

Renânia Superior;

Suíço;

Woerstadt;

Worms.

A ampliação é reveladora de uma característica fundamental da história petropolitana: a cidade não foi concebida como uma estrutura estática.

O território foi sendo ampliado e reorganizado à medida que crescia a população e se modificavam as necessidades da colônia. Entretanto, a lógica dos quarteirões permaneceu como referência.

É importante observar também que nem todos os nomes estavam relacionados à imigração germânica.

O Quarteirão Brasileiro, por exemplo, introduzia uma referência diretamente associada ao Brasil. O Quarteirão Francês, o Inglês e o Suíço remetiam a outras nacionalidades. O Quarteirão Mineiro relacionava-se à antiga comunicação com Minas Gerais e aos caminhos que atravessavam a região.

Já denominações como Presidência e Princesa Imperial revelavam relações políticas e institucionais ligadas à formação da cidade.

Assim, a nomenclatura dos quarteirões pode ser compreendida como uma espécie de mapa histórico da formação de Petrópolis.

5. Os quarteirões e a hidrografia de Petrópolis

Outro aspecto fundamental da organização territorial petropolitana é a relação entre os quarteirões e a geografia física.

Arthur Leonardo Sá Earp, em seu estudo sobre os quarteirões, demonstra a possibilidade de compreender a distribuição dessas unidades territoriais a partir das principais bacias hidrográficas do município.

A Bacia do Palatinato abrangia os quarteirões Palatinato Superior, Palatinato Inferior e Suíço.

A Bacia do Piabanha reunia áreas correspondentes aos quarteirões Woerstadt, Bingen, Darmstadt, Ingelheim, Mosela, Nassau, Westfália e Brasileiro.

Já a Bacia do Quitandinha abrangia áreas correspondentes aos quarteirões Worms, Inglês, Renânia Superior, Renânia Central, Renânia Inferior, Siméria, Castelânea e Francês.

Essa distribuição demonstra que a divisão de Petrópolis não pode ser compreendida apenas como uma nomenclatura histórica. Ela está relacionada à própria configuração física do território.

A cidade cresceu acompanhando vales, rios e encostas. O projeto urbano teve de dialogar com uma topografia particularmente complexa, marcada pela Serra do Mar.

Consequentemente, os quarteirões constituem também uma chave para a leitura da paisagem histórica de Petrópolis.

6. Quarteirão não é simplesmente bairro

É justamente nessa diferença que se encontra um dos pontos centrais do atual debate.

O conceito contemporâneo de bairro possui caráter predominantemente administrativo, urbano e social. Um bairro pode ser criado, alterado, subdividido ou incorporado por razões relacionadas ao planejamento municipal.

O quarteirão histórico de Petrópolis, entretanto, possui uma origem distinta.

Ele está associado ao processo de formação da Imperial Colônia, à distribuição dos prazos de terras, à organização dos colonos e à própria planta urbanística concebida no século XIX.

Substituir integralmente essa nomenclatura por outra divisão administrativa pode produzir uma consequência que vai muito além da alteração cartográfica: pode romper a ligação entre o território atual e o processo histórico que o originou.

É perfeitamente possível que um determinado espaço seja, simultaneamente, identificado administrativamente como bairro e historicamente como quarteirão.

Essa solução permitiria modernizar a gestão pública sem destruir a memória territorial.

Não há necessariamente incompatibilidade entre as duas categorias.

7. Os quarteirões como patrimônio histórico

A preservação dos quarteirões deve ser analisada dentro de uma concepção contemporânea de patrimônio histórico.

Durante muito tempo, a preservação patrimonial esteve concentrada em edifícios considerados excepcionais: palácios, igrejas, monumentos e residências de personagens importantes.

Atualmente, contudo, a compreensão do patrimônio histórico é muito mais ampla. Paisagens culturais, conjuntos urbanos, documentos cartográficos, lugares de memória e referências territoriais também podem possuir valor histórico.

Nesse sentido, a Planta de Petrópolis de 1846 apresenta importância excepcional.

Ela não é apenas um antigo mapa. É um documento que registra a concepção territorial de uma cidade planejada durante o Segundo Reinado e permite compreender como o território foi pensado no momento de sua formação.

A iniciativa do Instituto Histórico de Petrópolis de buscar o reconhecimento e a proteção patrimonial desse documento insere-se justamente nessa perspectiva de valorização da memória urbana.

Preservar a planta, contudo, não significa apenas conservar fisicamente o documento.

É igualmente importante preservar os elementos históricos que podem ser compreendidos por meio dele.

Se os nomes dos quarteirões desaparecerem da paisagem cotidiana, a planta continuará existindo como documento, mas parte significativa de sua leitura histórica poderá se perder.

8. A memória dos colonos germânicos

Os nomes dos quarteirões constituem ainda um dos mais importantes testemunhos da presença germânica na formação de Petrópolis.

A cidade possui uma relação particularmente profunda com a imigração germânica, não apenas porque milhares de colonos chegaram durante o século XIX, mas porque a organização espacial da colônia incorporou referências associadas às suas origens.

Nomes como Bingen, Ingelheim, Mosela, Nassau, Renânia, Palatinato, Siméria, Westfália, Darmstadt e Worms permanecem como vestígios linguísticos e históricos desse processo.

Cada vez que um petropolitano utiliza essas denominações, mesmo sem conhecer sua origem, está reproduzindo uma parte da memória territorial criada no século XIX.

A eliminação desses nomes da nomenclatura oficial poderia provocar, a longo prazo, uma espécie de invisibilização da história da imigração.

Não se trata de defender uma cidade congelada no tempo.

A preservação histórica não impede o desenvolvimento urbano. Ao contrário, uma cidade que conhece sua própria história pode modernizar-se sem perder seus referenciais.

9. As Vilas Imperial e Tereza e o Quarteirão Princesa Imperial

A dimensão simbólica da nomenclatura torna-se ainda mais evidente nas denominações diretamente relacionadas à Família Imperial.

A Vila Imperial corresponde à área central historicamente associada ao núcleo original da cidade e à presença do Palácio Imperial.

A Vila Tereza, por sua vez, remete diretamente à imperatriz Teresa Cristina, esposa de D. Pedro II.

O Quarteirão Princesa Imperial também incorporou à geografia urbana uma referência à Família Imperial.

Essas denominações não podem ser compreendidas isoladamente. Elas fazem parte do vocabulário político e simbólico da cidade criada durante o Segundo Reinado.

Ao longo do tempo, Petrópolis deixou de ser apenas uma colônia imperial e transformou-se em município, mas essas marcas históricas permaneceram incorporadas à paisagem.

O eventual desaparecimento dessas denominações deve, portanto, ser discutido também sob o ponto de vista da memória histórica.

10. Os quarteirões ainda existem

Um dos argumentos frequentemente utilizados para justificar o abandono dos quarteirões é a percepção de que eles teriam deixado de existir na prática.

Entretanto, essa afirmação precisa ser relativizada.

Os quarteirões permanecem presentes em documentos históricos, registros imobiliários, estudos genealógicos, mapas, pesquisas sobre a formação urbana e na própria memória de diversas famílias petropolitanas.

A questão talvez seja menos a inexistência dos quarteirões e mais o seu progressivo esquecimento pela população.

Esse esquecimento pode ser combatido por meio de políticas simples de educação patrimonial.

Uma possibilidade seria a instalação de placas informativas nas entradas dos antigos quarteirões, apresentando o nome histórico, sua origem e os limites aproximados da área.

Essa proposta, associada à valorização da pesquisa desenvolvida por historiadores locais como Paulo Roberto Martins, permitiria devolver visibilidade à divisão histórica sem impedir a utilização das atuais denominações administrativas.

Medidas dessa natureza possuem baixo custo e elevado potencial educativo.

11. O “abairramento” e o risco do apagamento histórico

A discussão sobre uma nova divisão administrativa do território petropolitano precisa ser realizada com serenidade e responsabilidade.

Uma administração municipal pode necessitar de novas categorias territoriais para facilitar a prestação de serviços, o planejamento urbano, a organização estatística ou a gestão pública.

Entretanto, uma reforma administrativa não precisa necessariamente eliminar a nomenclatura histórica.

O risco está em transformar uma divisão administrativa contemporânea em substituta absoluta da memória territorial.

Se determinados quarteirões deixarem de aparecer nos documentos públicos, mapas, endereços, placas e sistemas oficiais, a população das próximas gerações terá cada vez menos contato com essa nomenclatura.

O processo será gradual.

Primeiro, os nomes deixarão de ser utilizados nos documentos administrativos. Depois, deixarão de ser conhecidos pela população. Finalmente, poderão sobreviver apenas em livros de História e em arquivos.

Esse fenômeno pode ser compreendido como apagamento toponímico: não necessariamente a destruição física de um lugar, mas a retirada progressiva de sua identidade histórica do uso cotidiano.

É justamente esse risco que merece ser debatido.

12. Preservar não significa impedir a modernização

É importante deixar claro que a defesa dos quarteirões históricos não significa oposição ao desenvolvimento de Petrópolis.

A cidade precisa continuar planejando seu crescimento, aprimorando seus mecanismos administrativos e adequando sua estrutura às necessidades da população contemporânea.

A questão é encontrar um equilíbrio entre gestão administrativa e preservação histórica.

Uma alternativa seria adotar oficialmente os bairros para fins administrativos, mantendo paralelamente os quarteirões como referências históricas e culturais.

Assim, um endereço poderia indicar o bairro administrativo e, simultaneamente, o quarteirão histórico.

Essa solução permitiria que Petrópolis tivesse uma organização moderna sem romper com sua origem.

Trata-se, em última análise, de reconhecer que uma cidade possui diferentes camadas territoriais.

O bairro corresponde à necessidade administrativa contemporânea.

O quarteirão corresponde a uma camada histórica da formação urbana.

Ambos podem coexistir.

13. Considerações finais

Petrópolis possui uma característica que poucas cidades brasileiras conseguem apresentar com tamanha clareza: sua própria estrutura territorial conserva marcas explícitas de seu processo de formação.

Os quarteirões não foram denominações criadas casualmente em tempos recentes. Eles fazem parte de um projeto urbanístico iniciado no século XIX e relacionado diretamente à formação da Imperial Colônia de Petrópolis.

A Planta Koeler de 1846 constitui testemunho fundamental desse processo. Nela encontram-se registradas referências territoriais que permitem compreender a relação entre imigração, urbanização, geografia e poder imperial.

A posterior ampliação da cidade incorporou novos quarteirões e novas referências, demonstrando que Petrópolis foi uma cidade em permanente transformação. Contudo, a transformação histórica não significou a necessidade de apagar suas camadas anteriores.

É justamente essa perspectiva que deveria orientar qualquer reforma territorial contemporânea.

Se uma nova divisão administrativa for considerada necessária, ela poderá ser implantada. Entretanto, não é necessário que a modernização administrativa seja acompanhada pela eliminação da memória histórica.

Petrópolis pode possuir bairros para fins administrativos e conservar seus quarteirões como referências históricas.

Pode atualizar seus mapas sem apagar a Planta Koeler.

Pode modernizar sua administração sem eliminar Bingen, Mosela, Nassau, Renânia, Palatinato, Westfália, Ingelheim, Castelânea, Siméria, Worms e tantos outros nomes que contam a história da cidade.

Pode criar novas referências urbanas sem destruir as antigas.

A verdadeira modernização de uma cidade histórica não consiste em apagar aquilo que foi construído pelas gerações anteriores, mas em incorporar o passado ao presente de maneira consciente.

Nesse sentido, a discussão sobre o chamado “abairramento” deve ultrapassar a questão meramente administrativa. O que está em debate é também o direito de uma cidade conhecer e preservar a própria história.

Os quarteirões de Petrópolis constituem parte dessa história.

Foram pensados por Koeler, representados em suas plantas, ocupados pelos colonos, associados aos prazos de terras, incorporados aos registros e transmitidos entre gerações.

Se hoje muitos petropolitanos já não conhecem seus nomes, isso não significa que tenham perdido seu valor histórico. Pelo contrário: significa que existe uma necessidade urgente de reintroduzi-los na memória coletiva.

Uma política simples de identificação dos quarteirões, com placas, mapas históricos, material educativo e divulgação cultural, poderia transformar uma antiga nomenclatura esquecida em instrumento de educação patrimonial.

Assim, antes de eliminar os quarteirões, talvez seja necessário perguntar:

Que cidade queremos entregar às próximas gerações?

Uma cidade administrativamente mais simples, mas historicamente mais pobre?

Ou uma Petrópolis capaz de conciliar as necessidades administrativas do século XXI com a preservação das marcas deixadas por aqueles que ajudaram a construí-la?

A resposta a essa questão não diz respeito apenas aos quarteirões.

Diz respeito à própria concepção de patrimônio histórico e à responsabilidade que temos diante da memória de Petrópolis.

 

Referências bibliográficas:

EARP, Arthur Leonardo Sá. Os Quarteirões. Instituto Histórico de Petrópolis. Petrópolis, RJ.

INSTITUTO HISTÓRICO DE PETRÓPOLIS. Acervo documental e cartográfico sobre a formação territorial de Petrópolis. Petrópolis, RJ.

PETROTUR. Planta de Petrópolis. Petrópolis: Petrópolis Turismo, publicação de 1995.

PETRÓPOLIS. Prefeitura Municipal. Documentação histórica e urbanística de Petrópolis. Petrópolis, RJ.

KOELER, Júlio Frederico. Planta da Imperial Colônia de Petrópolis, 1846. Acervo cartográfico histórico.

REIMARUS, Otto. Planta de Petrópolis, 1854. Acervo cartográfico histórico.

MUSEU IMPERIAL. Documentação histórica referente à criação e desenvolvimento da Imperial Colônia de Petrópolis. Petrópolis, RJ.

MARTINS, Paulo Roberto. Estudos e registros sobre os quarteirões históricos de Petrópolis. Petrópolis, RJ.

Planta de Petrópolis, 1846 - Autoria: Major Júlio Frederico Koeler
Restaurada em 2016 pela equipe do Museu Imperial de Petrópolis, coordenada pela restauradora Eliane Zanatta


 


sexta-feira, 27 de setembro de 2024

FUNDAÇÃO DE PETRÓPOLIS

 Prof. Lourenço Luiz Lacombe, I.H.P.

 Petrópolis é uma consequência do Caminho Novo em 1725, por Bernardo Soares Proença.

Às margens desse caminho distribui o rei de Portugal várias sesmarias, sendo a principal delas, concedida ao próprio Proença pelo seu trabalho na abertura da estrada.

Com o correr do tempo, e em virtudes de sucessões e vendas, veio a propriedade transformar-se em três fazendas distintas: Itamarati, Córrego Seco e Quitandinha.

No início do sec. XIX aparecem as terras do Córrego Seco como propriedade de Manoel Viera Afonso, que detinha ao que parece, por usucapião.

Sua viúva, Cesariana Josefa de Jesus, falece em 1825 e as terras da fazenda são descritas em seu inventário como “frias e inferiores nem servem para cultivar” [...] “e não davam mantimentos por serem chegas à serra”.

Tem a “casa dividida, coberta de telhas muito antiga” [...] “muito arruinada com os esteios baldrames tudo cortado.”

Não convida dividir uma propriedade em tão precárias condições, entre os 9 herdeiros, o oferece-se o testamenteiro Serginho J.V.A., filho primogênito da testadora e ficou com a fazenda, responde e ficou demais herdeiros a quantia de duzentos mil réis, valor da avaliação então feita, importância logo aceita.

Pelo que parece, aí não morou José Veira Afonso, pois era proprietário de terras nas vizinhanças e Córrego Seco não deixou ser feita nenhuma melhoria, até ser vendida ao Imperador.

D. Pedro I passou a frequentar a fazenda do Padre Correia desde quando sua filha a Princesa d. Paula, tornou-se hóspede do sacerdote por indicação médica que lhe prescreveu mudanças de ares.

A presença de D. Paula na fazenda é documentada por vários viajantes que por ali passaram e alí se hospedaram durante o 1º Reinado.

Até 1826 ia ao Imperador em companhia de D. Leopoldina visitar a filhinha enferma.

De 1829 em diante, com a nova Imperatriz, a bela D. Amélia de Beauharnais a qual pareceu ser bastante penoso a proprietária D. Arcângela Joaquina da Silva, irmã e herdeira do Pe. Correia, as periódicas estadas da Família Imperial na Fazenda. Dessas visitas de D. Pedro I ficou o nome de Poço do Imperador, atribuído a uma bacia natural do Rio Morto.

Pretendeu então D. Amélia comprar a fazenda que o Pe. Correia tornara célebre, proposta pela nova proprietária que alegou motivos de família por não aceitar ao imperial desejo. Mas provavelmente por indicação da própria D. Arcângela foi indicada a fazenda vizinha do Córrego Seco.

Os entendimentos com o Major Viera Afonso chegaram a bom termo em 6 de fevereiro de 1830 comprava D. Pedro I o Córrego Seco por vinte contos de réis, preço cem vezes maior do que custava ao Serginho, por 5 anos antes do inventário materno!

Denominou o Imperador as terras adquiridas de Fazenda da Concórdia, nome também atribuído ao palácio que ali pretendia erguer, chegando a encomendar o plano e a realização orçamento. Mas os acontecimentos políticos se complicaram – e Concórdia tão almejada, ficou apenas num sonho que se esvaiu, e o Imperador se vê compelido a abdicar no ano seguinte.

A fazenda – que voltou inexplicavelmente, a chamar-se de Córrego Seco – passou  a ser administrada através dos procuradores de d. Pedro I pelo sistema de arrendamento.

Em 1834 morreu em Portugal o ex-Imperador e no seu inventário, doa o Córrego Seco a d. Pedro II. Mas a fazenda estava “lançada” aos credores para que o jovem imperador pudesse receber a herança, foi necessário a abertura de crédito pela Assembleia Geral, no valor de 14 contos de réis (como se desvalorizam as terras...) para levantamento da hipoteca.

Não houve porém, interrupção no processo de exploração das terras, continuando o Córrego Seco a pressão de arrendatário a arrendatário.

Mas o mordomo da Casa Imperial, Paulo Barbosa da Silva, que servia a d. Pedro II sempre sonhara em realizar o plano do antigo Imperador, erguer no Córrego Seco, um palácio de Verão. Mas como fazê-lo, numa fazenda desabitada, improdutiva e de difícil acesso?

Foi quando terminou o prazo de um desses contratos de arrendamento, apresentou-se como candidato o nosso arrendamento o jovem Major de Engenheiros, Júlio Frederico Koeler, que pretendia estabelecer na propriedade imperial uma colônia agrícola de alemães.

Ora, o projeto do Major Koeler vinha dar ao de Paulo Barbosa, os meios de concretizá-lo. Assim entrosados os dois planos são apresentados ao Imperador que os aprova de maneira mais solene havendo Decreto Imperial, nº 155 de 16 de Março de 1843, que dizia:

“Tendo approvado o plano que me apresentou Paulo Barbosa da Silva, do Meu Conselho, Official Mór, e Mordomo de Minha Imperial Casa, de arrendar a Minha Fazenda denominada “Corrego Seco” ao Major de Engenheiros Koeler; pela quantia de um conto de réis annual, reservando um terreno sufficiente para nelle se edificar um Palacio para Mim, com suas dependencias e jardins, outro para uma povoação, que deverá ser afórado a particulares, e assim como cem braças dum e outro lado da estrada geral, que corta aquella Fazenda, o qual deverá tambem ser afórado a particulares, em datas ou prazos de cinco braças indivisiveis, pelo preço porque se convencionarem, nunca menos de mil réis por braça :
Hei por bem authorisar o sobredito Mordomo a dar execução ao dito plano sob estas condições. E outrosim o Authorizo a fazer demarcar um terreno para nelle se edificar uma Igreja com a invocação de S. Pedro de Alcantara, a qual terá uma superficie equivalente a quarenta braças quadradas, no logar que mais convier aos visinhos e foreiros, do qual terreno lhes faço doação para este fim e para o cemiterio da futura povoação. Ordeno portanto ao sobredito Mordomo que proceda aos ajustes e escripturas necessarias, n’esta conformidade, com as devidas cautelas e circumstancias de localidades, e outrosim que forneça a minhas espenças os vazos sagrados, e ornamentos para a sobredicta Igreja, logo que esteja em termos de n’ella se poder celebrar. Paço da Boa Vista deseseis de Março de 1843, vigesimo segundo da Independencia e do Imperio. Dom Pedro II. Paulo Barbosa da Silva. Conforme, Augusto Candido Xavier de Brito.”

O Decreto não fala de Petrópolis, somente em Córrego Seco. Donde, então surgiu o nome? Paulo Barbosa e notas escritas para o livro de Ribergrolles  atribui a si a autoria: “Lembrando-se de Petersburgo, cidade de Pedro recorrido ao Grego e achei uma cidade com este nome no arquipélago, e sendo o Imperador d. Pedro, julguei que lhe caberia bem este nome.”

Mas o plano de Koeler era instalar na fazenda imperial uma colônia agrícola de alemães. Já possuía ele experiência no assunto: em 1837, arribara ao Rio de Janeiro uma navio transportando imigrantes germânicos para a Austrália e que os maus tratos recebidos e o péssimo passadio, provocaram mil revoltas a bordo, obrigando o capitão a desviar-se para a baía de Guanabara. Recusando-se a prosseguir a viagem, foram entregues a Koeler, que estava então, encarregado dos trabalhos da estrada, ligando o Porto da Estrela à Paraíba do Sul, passando por Córrego Seco. Levou Koeler esses seus patrícios a trabalhar nas obras de que estava incumbido; e tão bem sucedida foi essa experiência que mudou a mentalidade dos nossos governantes, partidários até então do trabalho escravo.

Assim, iniciou o Presidente da Província Fluminense, entendimentos com firmas europeias especializadas no intuito de contratar colonos alemães para as obras públicas províncias.

São pois, duas iniciativas paralelas de Koeler! Para colonização de Petrópolis e da Província para as obras públicas. Mas enquanto aquele pretendia gente especializada para sua colônia agrícola, buscava a Presidência Fluminense, operários de um modo geral que contrata, por intermédio de Jênio Pizani, representante de Charles Delrue de Dunquerque, 600 colonos, responsabilizando-se ainda a Província pelas passagens das mulheres e dos filhos menores.

Na tradução do contrato para o alemão foram substituídas palavras mulheres e filhos por família – e, tomada a expressão no seu sentido mais amplo trazendo cada casal, como sua família, parentes em vários graus...

O 1º navio do contrato Virginie, chega ao Rio a 13 de junho de 1845. Façamos um parênteses para imaginar qual teria sido a impressão desses imigrantes: depois de mais um mês de incômoda viagem – cujo passado deixou muito a desejar – atingiram o Rio de Janeiro ao entardecer diante dessa baía imensa ainda cercada de espessa mata, no dia de Santo Antônio, festejado pelos portugueses com fogueiras e foguetórios, fechamos o parênteses.

O navio Justine trazia carga de 13 famílias, mas num total de 170 pessoas, entre velhos e crianças, que não eram certamente, indicados paras as obras públicas provinciais.

E nos dias subsequentes outros navios com idêntica espécie de passageiros... Não estava a província preparada para abrigar toda essa gente. Aquela então para o mordomo o qual por ordem do Imperador, manda que sejam entregues a Koeler. Sobem então a serra e chegam ao antigo Córrego Seco no dia 29 de junho de 1845 que ficou sendo considerado como dia da Colonização de Petrópolis.

Distribui Koeler os colonos pelos prazos assinalados na planta de povoação por ele elaborada, a qual se verifica é anterior à criação do povoado, e sendo assim pode Petrópolis reivindicar o título de 1ª cidade planejada do Brasil. Em torno do núcleo central, nessa planta denominada Vila Imperial, projetou Koeler os vários quarteirões designados com os nomes dos locais de onde procediam os colonos, abrasileirados alguns, no original a maioria Bingen, Mosela, Ingelheim, Siméria, Westfália, Castelânea, Palatinado, Renânia, Worns, Nassau, Darmstadt, Woerstadt.

Estabelecidos nos seus prazos adquiridos pelo sistema de enfiteuse, tinham os colonos como seu primeiro serviço a construção do Palácio do Imperador, iniciados os trabalhos pelo preparo do terreno, o que já vinha sendo feito desde de janeiro de 1845, por africanos livres.

A pedra fundamental foi lançada na presença do Imperador a 18 de julho de 1845, o qual determinou fosse o palácio localizado junto à confluência das ruas do Imperador e da Imperatriz.

As obras seguiram o plano original de Koeler, modificado quanto à frontaria pelo artista italiano Cristófono Bonimi. Grandes artistas se sucederam na administração e decoração da obra: José Maria Jacinto Rebelo, Manoel de Araújo Porto Alegre, J. Cândido e Vicente Marques Lisboa. A Koeler conta apenas a construção da ala direita inicialmente de zinco, substituída mais tarde, e reformada pelos sucessores, depois da sua trágica morte em 1847.

Foi ele enterrado no primitivo cemitério da Colônia, localizado no Triângulo Serrano, onde hoje se encontra a Igreja do Sagrado Coração de Jesus e o Convento dos Franciscanos. Com a inauguração do novo cemitério foram seus restos mortais, transferidos para esse campo santo, enterrados ao lado da Capela, onde permaneceram por longos anos, até que, em 1955 foram transladados para a base da estátua erguida em sua homenagem, obra do escultor Antônio Leraldes.

Jornal: Tribuna de Petrópolis, 25 de junho de 1994.

Palácio de Verão de Petrópolis. 
FRIEDRICH HAGEDORN, TÊMPERA, CA. 1855. ACERVO MUSEU IMPERIAL/IBRAM/MINC


terça-feira, 6 de julho de 2021

HOMENAGEM AO MAJOR JÚLIO FREDERICO KOELER EM 29 DE JUNHO DE 2021

 

Excelentíssimo sr. Hingo Hammes, prefeito interino de Petrópolis

Ilustrissimo sr. Marco Antonio Kling Presidente do Clube 29 de Junho

Ilustrissima sra. Emygdia Magalhães Hoelz Lyrio, presidente de honra do Clube de 29 de Junho

Execelentíssimo sr. Dirk Augustin, Consul-Geral da Alemanha no Brasil

Senhoras e senhores, bom dia!

 

Julius Friederich Köeler, nascido em Mogúncia, no reino da Prússia, em 16 de junho de 1804, e falecido em Petrópolis, a 21 de novembro de 1847, vitimado por um disparo de arma de fogo quando praticava tiro ao alvo com amigos, em sua chácara, na Terra Santa. Militar do exército prussiano, em 1828 veio para o Brasil, contratado para servir ao Exército Imperial Brasileiro. Aqui constituiu família e, em 1831, assumiu oficialmente a nacionalidade brasileira, integrou diversas equipes de trabalho, em construção de estradas e pontes na província fluminense. A 16 de março de 1843, recebeu do Imperador D. Pedro II a honra de planejar e instalar o povoado de Petrópolis e edificar seu palácio de verão. Nomeado primeiro Super-intendente da Imperial Colônia de Petrópolis, conseguiu, em 1845, trazer para fixação no Córrego Seco, por aforamento perpétuo, em benefício do proprietário das terras, imigrantes alemães.

Após essa breve biografia, de nosso homenageado gostaria de compartilhar com os senhores uma crônica, publicada em 1858 no jornal PARAHYBA, escrita por Jean Baptiste Binot.

Binot, cidadão francês contemporâneo de Koeler no alvorecer de Petrópolis, montou primitivamente uma chácara no Quarteirão Nassau e mais tarde, no Retiro, outra maior que ainda existe, hoje Orquidário Binot. Aqui criou um completo viveiro de plantas adaptáveis ao nosso clima das quais fazia larga exportação. A ele, deve Petrópolis, em grandes parte o renome de “Cidade das flores”.

Tão grande era o valor de Binot, que foi agraciado com uma comenda pelo Imperador e o Visconde de Taunay incluiu seu nome na obra “Estrangeiros ilustres e prestimosos.”, considerando-o notável horticultor.

Culto e perspicaz foi, talvez, o morador de Petrópolis que primeiro sentiu ou melhor avaliou a irreparável perda que constituiu para o progresso da cidade o acidente ocorrido com Koeler no em, 21 de novembro de 1847.

Passados onze anos, ainda chorava Binot a morte de seu amigo Koeler, ao qual assim se referia no jornal “Parahyba” de 23 de dezembro de 1858:

“Tomou-o a morte no começo de todos os grandes trabalhos que foram esboçados por ele, mas que ficaram suspensos ou paralisados durante muitos anos. Depois de sua morte o progresso da colônia começou a diminuir em razão da má direção que tomou sua administração.

Um forte impulso fora-lhe, porém, dado, e, semelhante a uma locomotiva lançada a todo a vapor derrubando tudo o quanto encontrava em sua passagem, diminuindo a carreira progressivamente, até que mão inteligente apareça para entreter-lhe a renovar-lhe o impulso que recebera.”

E prosseguindo conta-nos o seguinte episódio:

“O Major Júlio Koeler, posto que riscado da lista dos vivos, não abandonou ainda sua querida Petrópolis.

Perguntai por ele aos colonos do Bingen e eles vos dirão que o fantasma do major Koeler aparece de tempos em tempos no seu quarteirão.

Esses bons alemães, tão crédulos e supersticiosos, asseguram tê-lo visto muitas vezes ao cair da noite. Porque não?

Em 1857, por uma bela noite de julho, passeava eu pela Rua D. Afonso, entre a meia noite e uma hora da manhã, e chegando ao pé da casa do Barão do Pilar, pareceu-me ver como que um fantasma apoiado na grade. Lembrei-me do major Koeler e ouvi a seguinte lamentação:

-Oh! Petrópolis, que querem fazer de ti que deixam em tão completo abandono? Esta rua D. Afonso que eu tinha destinado para a residência da aristocracia traçando o plano das casas e alimento, não teve a sorte que lhe destinei.

E as ruas de Joinville, Maria II e da Imperatriz que destinei para morada dos fidalgos e empregados da Casa Imperial, a quem dei os melhores lugares para construírem suas habitações em torno do Palácio, não tiveram melhor sorte do que esta D. Afonso, porque todos negociaram com os favores que concedi e deram-se pressa em vender seus terrenos. Foram eles que concorreram para abatimento de Petrópolis, ao invés de procurarem engrandecê-la!

Oh! Brasileiros, havereis de reconhecer mais tarde o erro em que caístes e comprar muito mais caro, o que vendestes barato, porque Petrópolis há de ser para vós outros um refúgio a que tereis de abrigar-vos para fugir das epidemias do Rio.

Nisto, desapareceu o fantasma e eu achei em seu lugar um manuscrito em francês, predizendo o futuro de Petrópolis que se realizará de 1856 a 1860.

Algumas pessoas que, como eu não desesperaram nunca do futuro glorioso de Petrópolis, saberão com prazer que este belo lugar está destinado a ser o mais formoso ornamento da coroa imperial.”

 Antes de terminar, gostaria de lembrar aos senhores, que aqui aonde estamos não é apenas uma Praça com um monumento, neste local se encontram os restos mortais do Major Julio Frederico Koeler. Considero a maior homenagem a este ilustre cidadão germânico-brasileiro, estar sepultado nesta praça com a sua estátua ao alto, como um sentinela a velar pela nossa querida cidade.

Muito obrigado a todos!

                    

Frederico Haack, na Praça Princesa Isabel. Petrópolis, RJ - 29/06/2021


quinta-feira, 15 de março de 2018

A FUNDAÇÃO DE PETRÓPOLIS


Dom Pedro II tinha apenas 9 anos quando herdou a Fazenda do Córrego Seco e teve uma grande surpresa. Para garantir o trono em Portugal, seu pai havia contraído muitas dívidas e até as terras do Córrego Seco estavam arrendadas e empenhadas a credores europeus. Ele ia perder tudo. Para evitar que as terras fossem parar em mãos estrangeiras. Por iniciativa do Marquês de Paraná, Honório Hermeto Carneiro Leão, o governo foi autorizado a destinar uma verba para pagar os credores e liberar a fazenda que foi doada ao jovem imperador como presente da nação brasileira, por ocasião da sua maioridade, que foi declarada quando ele tinha apenas 16 anos.
 Como presente não se toma, quando foi proclamada a república em 1889, as terras do Córrego Seco e demais fazendas anexadas continuaram como propriedade particular de dom Pedro II e depois de seus herdeiros, como acontece até os dias de hoje.
 Dom Pedro II, ao contrário de seu pai, tinha ideias mais modéstias para a Fazenda. Pretendia ter apenas uma casa para assim aproveitar o clima serrano. O imperador era uma pessoa controlada com seus gastos e já que que se tratava de uma propriedade particular, quis usar seus próprio dinheiro para a construção. No entanto, o Mordomo da Casa Imperial, Paulo Barbosa da Silva, pensou em plano grandioso para as terras de “Serra Acima”.
 Paulo Barbosa, pensou em palácio cercado por jardins e ao seu entorno, uma povoação, assim a casa de veraneio não ficaria isolada no meio das montanhas deixando a Família Imperial vulnerável a ataques a sua segurança. Tudo foi planejado: o Palácio, a estrebaria, uma casa para empregados e hóspedes, cozinhas, casa de banho, e fora da área palaciana, local para um cemitério, para uma igreja, lojas comerciais e de artesanato. As pessoas que tinham interesse em construir casas ou se estabelecer na região seriam chamadas de foreiras à fazenda, ou seja, tinham o direito de usar os terrenos conforme o planejado, mas não seriam donos da terra que continuaria a ser propriedade da Família Imperial, como é até hoje.
 Apresentado e aprovado o projeto, dom Pedro II, mandou redigir o decreto número 155 de 16 de março de 1843, registrado nos Registros da Mordomia.
 Assim nasceu Petrópolis, imaginada por Paulo Barbosa e carinhosamente chamada por ele de “Minha filha Petrópolis”.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:
ABAD, Vera. Petrópolis, Cidade Imperial. Editoria Prazerdeler, 2009.

 Apresentação do projeto de Petrópolis, a dom Pedro II pelo Major Julio Frederico Koeler e o Mordomo Paulo Barbosa da Silva. ACERVO MUSEU IMPERIAL

sábado, 9 de julho de 2016

KOELER VILÃO OU HERÓI?

 Segue abaixo a transcrição da carta do Pastor Stroele da Igreja Luterana, para a Basileia (atual região da Alemanha) publicada em um jornal na Alemanha, relatando as atrocidades cometidas contra os colonos, desde a saída deles de Dunquerque até chegarem em Petrópolis, quando continuaram a sofrer privações e se serem submetidos a um sistema corrupto e de favorecimento criado pelo Major Julio Frederico Koeler.

“No anno de 1843 tomou o governo da Provincia do Rio de Janeiro a resolução de construir uma via de communicação com a Província de Minas. Para alcançar de uma maneira barata forças de trabalho para execução desse projecto fez o presidente da província em 15 de Julho de 1844 com Eugenio Pisani, agente de Charles Delrue & Cia., em Dunquerque, um contracto no qual essa casa obrigou-se a fornecer 600 famílias. O governo prometeu tomar a si as despezas de transporte e pagar por uma pessoa adulta 245 francos e para uma criança de 5 a 15 annos, metade dessa soma. Delrue, então, fez tocar o tambor de engajamento na Allemanha, especialmente no Rheno, na certa “presopição”que o manso allemão acreditaria nas falsas promessas de seus agentes e seguiria com bom ânimo para a terra das palmeiras e dos diamantes. Assim succedeo. Disse a estes pobres que ganhariam, sem grande pena, 3 fl. 30 kr. (moeda allemã 2.500); a terra era tão insigne e magnífica que apenas só poderia comparar o Paraizo com ella; receberiam terras a vontade, além de Pastores e Professores de seu idioma. Em pouco tempo estavam juntas 600 famílias. Estas venderão por preço barato os seus bens e deixarão com corações alegres sua pátria. Mas apenas tinhão deixado as fronteiras allemãs, começou a miséria. Chegadas a Dunquerque, não acharão ainda promptos os navios destinados para elles. Os capitães não os aceitarão; dirigirão-se a Delrue e este mandou a bordo  e capitães outra vez a Delrue. Deste modo, mandados para lá e para cá, errarão sem conhecer a língua franceza, com seus diminutos bens pela cidade. Diversas noites precisarão passar fora, ficarão roubados e escarnecidos. Os Consules allemães negarão auxílio dizendo que eles agora erão emigrantes e por isso não erão mais allemães. Emfim forão alojados em adegas, estrebarias e em outros míseros cantos, mas foram obrigados a sustentarem a sua custa, conquanto Delrue recebeu para esse sustento 60 francos.
Si já estavam em grande miséria em Dunquerque, acharam a bordo uma existência verdadeiramente horrível. Enquanto o sustento devia consistir de comidas fortificantes e nutritivas, que no contracto estavam especificados, os miseráveis mantimentos que recebiam apenas os livrara da morte pela fome.
Quando chegou o navio ao Rio de Janeiro estava cheio de provisões e estas então foram vendidas a altos preços.
O navio chamava-se “Maria” e o capitão scelerado – Castell. A esta vida de fome ajuntaram ainda castigos corporaes e a deshonra das pessoas femininas; se os Paes defenderam suas filhas ou os maridos suas mulheres foram por algumas horas amarrados no mastro do navio e queimados ao calor do sol, e também por muitas vezes maltratados.
Quando enfim entraram no porto do Rio de Janeiro, que estava cheio de vida, com suas verdes e florescentes ilhas, suas risonhas chácaras e margens parecentes jardins e viram a cidade que estava situada n’uma ponta quadrada da terra resaltada,o sereno firmamento e os pittorescos montes, cortados por deleitosos vales, cobertos de Mattos de laranja e limões, então fizeram exclamações de júbilo, esqueceram-se de todas as privações, pensando que podiam descançar e restabelecer-se nessas praias que tão risonhas olharam para elles; porém os pobre! Acharam-se ainda mais miserável, ainda mais horrível.
O governo, no entanto, tinha-os abandonado.
Com o projecto de construir estradas e canaes para o interior da província do Rio de Janeiro e estabelecer uma via de communicação com Minas Geraes, não se lembrou mais dos trabalhadores engajados na Europa e por isso não tinha feitos preparativos alguns para alojal-os.
Foram desembarcados na Praia Grande. O ardente calor, o desconhecimento da língua, a falta de mantimentos e de segurança contra os negros inclinados a roubar e a immoralidade canalha dos mulatos, levarão os deploráveis emigrantes a total desesperação.
Nascerão enfermidades em pouco tempo (em todo três semanas) salvou a morte 314 pessoas das suas misérias.
Finalmente, o corpo do commercio allemão “compaixou-se” de seus pobres compatriotas e implorou a compaixão do Imperador para que se empenhasse para esses miseráveis.
D. Pedro, um monarcha benigno e benevolente, estava logo prompto a dar-lhe efficaz soccorro.
Elle comprou em parte, por sua própria custa, um numero considerável das obrigações que lhes erão impostas pelos contractos. Uma parte dos emigrantes mandou levar para outras colônias, outros, mandou transportar para sua propriedade do Córrego Secco, para fundar ali uma residência de verão e uma colônia, ainda que duas tentativas de colonização alli já se tinhão malogradas. Petrópolis, como se chama o lugar, está situada a 25 léguas do Rio; a terra é muito montanhosa, cortada por profundos valles e travessado por innumeros riachos.
A temperatura é 10 gráos differente da do Rio de Janeiro, desagradável, sempre nebulosa, turva; os chuveiros são horríveis, o chão é frio, humido de modo que muito não prospera.
Para aqui forão, pois transportados esses pobres emigrantes allemães. A cada um foi dado algum trato de terra para os primeiros dez annos livres de impostos e depois tem de pagar um pequeno imposto annual.
Na chegada dos colonos, Petrópolis era uma pobre aldeia, cercada de mattos virgens.
Se os colonos já tinhão soffrido de máo e de duro na sua estada em Dunquerque, na viagem do mar e em Praia Grande, tudo isto desappareceu diante de uma vida infernal em Petrópolis; não havia de comer, nem moradia, nem caminhos, nada senão o matto virgem, neblinas, chuveiros e uma luta amargosa contras reptis venenosos. Uma epidemia dizimou-os; a desesperação na providencia divina abalou as suas consciências religiosas. A bebedeira e a immoralidade de toda espécie augmentou ainda a desgraça delles.
A isto tudo se juntou o mau estado em que se achavão as autoridades e caracter totalemente corrupto do primeiro director, official no serviço brasileiro, Julio Koeler que reuniu em si na mais bella floresncia a fraude, a traição e a immoralidade.
O governo concedeu para a construcção de ruas e caminhos mensalmente a somma de 45.000 francos. Havia pois serviços e bons ganhos; os colonos trabalharão bem e constantemente, mas não receberão pagamentos e sim tudo por conta. Koeler tinha o privilegiode estabelecer vendas. Os colonos receberão mantimentos; Koeler fez os preços. Por certos motivos Koeler abandonou este privilegio e consentiu o commercio livre, mas como os colonos nunca receberão dinheiro, nunca puderão pagar, os negociantes e estes negarão dar-lhe mantimentos e preferirão fechar suas casas. Então appareceu a fome.
Koeler forçou os colonos de entregar a elle as cartas destinadas para a antiga pátria com o pretexto que elle as sabia expedir seguramente. Uma carta que dizia a verdade foi destruída mas quem achava tudo bello e magnífico foi gratificado.
Koeler foi, além disto, um homem horrivelmente voluptuoso. Quem tinha uma mulher bonita ou uma filha moça, recebia uma colônia bem situada ou serviço lucrativo ou um emprego como inspector.
Não satisfeito de seduzir elle mesmo, chamou os brasileiros mais distinctos da Côrte para lhe ajudar. A elles foi obrigado a entregar a mulher, se não queria ver o pae ou marido na cadeia e seus parentes na miséria. Muitos deixarão então a colônia e ainda hoje o nome da senhora Wether está altamente honrado, que com um bofetão colossal deitou ao chão o director Koeler.
Os sucessores de Koeler forão seus semelhantes. Assim rodeados de necessidades, de miséria e de calamidades sem Pastor que podia distribuir a consolação da religião aqui tão necessária, cahirão os colonos também no mais profundo abandono mora. O marido não estava seguro de sua mulher nem o pae de sua filha. Moças e mulheres forão formalmente roubadas, meninas de 9 e 11 annos forão atiradas á rua e deshonradas. E ele o homem allemão prestou-se como atormentador e algoz de pobres colonos.”
Pastor Stroele, 1865.

Major Júlio Frederico Koeler


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:

SILVEIRA, J. D. “A correspondência do pastor Stroele com a Sociedade de Missões da Basiléa”. In Tribuna de Petrópolis, 19 e 20 de Março de 1942.